Presidente do SinSaúdeSP é entrevistado no programa ‘O SUS nosso de cada dia’

Com mais de 90 anos de história, o Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Saúde de São Paulo (SinSaúdeSP) tem passado, nos últimos quatro anos, por uma reformulação para impulsionar suas ações a fim de que esteja mais perto dos trabalhadores e das lutas da sociedade.

Assim destacou Jefferson Caproni, presidente do SinSaúdeSP, em entrevista na edição de 26 de setembro do programa ‘O SUS nosso de cada dia’, que marcou a estreia de seu novo horário: no último sábado de cada mês, às 12h, com apresentação de Beto Souza e Marcos Rubens.

Jefferson atua como profissional de Enfermagem há 20 anos e está à frente deste sindicato desde 2022: “Na pandemia, eu trabalhei como técnico de enfermagem dentro do hospital, e dois amigos de profissão faleceram. Eu fui, então, para alguns atos de luto por eles, e comecei a fazer daquela dor do luto uma luta. Hoje ainda há um gargalo no serviço de saúde, como o fato de quem está na linha de frente dos trabalhos não ter todos os EPIs, toda a proteção individual que precisa. Lutamos também por melhorias de salário, mas a nossa luta basicamente é para poder viver dignamente da profissão”.

Atualmente, o SinSaúdeSP representa 1,1 milhão de trabalhadores em 40 cidades paulistas, dos quais 380 mil no munícipio de São Paulo. São profissionais que atuam em estabelecimentos de saúde como hospitais, clínicas, policlínicas, UBSs, UPAs, AMAs e AMEs.

“Nós somos o controle social do trabalhador. Tudo que chega pra gente através do trabalhador, a gente se une com uma frente jurídica e administrativa muito forte, buscando ser a força dos trabalhadores. Recebemos, em média, 100 trabalhadores por dia, para tratar de questões como demissão, rescisão, reintegração e adoecimento”, detalhou Jefferson Caproni.

O CONTROLE SOCIAL DA SAÚDE

O apresentador Marcos Rubens explicou que uma das dimensões do controle social da saúde se dá por meio dos conselhos gestores de saúde com a participação de usuários, trabalhadores do SUS e os gestores e diretores dos serviços de saúde.

Jefferson, por sua vez, apontou que o usuário do serviço de saúde é o elo entre o trabalhador e a gestão de saúde. “O controle social aponta que é o povo quem deve controlar o SUS, mas podemos falar que há uma incoerência, pois pelo entendimento da legislação, tudo – desde a aprovação de um equipamento no território, a equipe que nele vai trabalhar, o tipo de atendimento, as especialidades que haverá – deveria ser compartilhado entre usuários e o segmento trabalhador. Entretanto, durante a pandemia, houve um entendimento alguns estados e municípios sobre autonomia administrativa, em que o próprio presidente do conselho de saúde, que é o secretário de saúde, ganhou a autonomia para tocar tudo. Infelizmente, isso se manteve no pós-pandemia em alguns conselhos gestores e conselhos de saúde aqui no município e também no estado”, lamentou.

GARGALOS NO SERVIÇO OFERECIDOS PELAS OSs

O presidente do SinSaúdeSP recordou que hoje cerca de 90% do atendimento feito no Sistema Único de Saúde (SUS) no município de São Paulo é controlado pelas OSs de saúde (Organizações Sociais de Saúde), entidades privadas, sem fins lucrativos, qualificadas pelo poder público para administrar as unidades de saúde, uma configuração que tem se mostrado prejudicial aos trabalhadores do setor.

“Os trabalhadores nas OSs ficam coagidos em dar sua própria opinião, pois o contrato do poder público também envolve a prestação de serviço daquele trabalhador, que é um servidor e deveria ter os mesmos direitos e autonomia de um servidor público, mas não é assim. Se a Organização Social de Saúde que preside uma determinada unidade não está indo bem, o trabalhador não poderia ser julgado nem punido por isso, mas hoje, infelizmente, não vemos o trabalhador tendo autonomia. Além disso, seu salário não é compatível com aquilo que foi contratado. Isso para nós é fraude jurídica, já que hoje, em razão das portarias que existem no munícipio de São Paulo, muitos trabalhadores não são contratados em sua devida categoria”, comentou Jefferson, detalhando que esta foi uma das motivações para o protesto realizado pela categoria no mês de setembro, também em razão dos reajustes de salário e de benefícios ainda não terem sido feitos após a data-base do mês de maio.

Jefferson mencionou os gargalos das unidades de atendimento hospitalar geridos por OSs, entre estas o Hospital da Brasilândia: “Aí na Brasilândia, há um equipamento bonito de saúde, mas que não funciona de fato. Nós sabemos que quando chega o gestor de uma organização social vinda de outro estado [a IMED, gestora do referido hospital, tem base no estado de Goiás], este gestor não entende a nossa realidade de controle social”.

Ele explicou que a luta do SinSaúdeSP nunca objetiva prejudicar os usuários dos serviços de saúde: “Não queremos ver as portas fechadas do hospital, pois isso acaba sobrecarregando as UPAs e as UBSs. No entanto, a organização social de saúde tem possibilidade administrativa e autonomia para tocar bem o negócio, mas nos assusta o elevado índice de desassistência, não por falta de recursos, mas por falta de um gerenciamento efetivo dentro da Brasilândia”, disse, lamentando que o conselho gestor de muitos equipamentos não tenha autonomia de ação perante situações como estas.

Jefferson defendeu que quando a Organização Social de saúde não é eficiente na gestão de uma unidade, ela seja substituída e nãos os trabalhadores que estão na ponta do atendimento.

BAIXA REMUNERAÇÃO

Outro problema, segundo Jefferson, é a baixa remuneração paga aos profissionais da área da Saúde, especialmente nas OSs.

“Hoje por ter baixo salário baixo, muitos profissionais precisam somar o valor do vale alimentação ou do vale-refeição para pagar aluguel, luz, água e outras contas do mês”. Ele destacou que com a remuneração atual, o trabalhador apenas consegue sobreviver, mas sem a independência financeira para escolher o que come, onde mora e quais outras atividades fará. “O que se faz hoje com um vale-refeição de R$ 200? Isso não alimenta nem uma pessoa, imagina o restante da família”, lamentou.

Jefferson também falou a respeito da subvalorização do trabalho dos profissionais da educação que dão suporte aos estudantes com deficiência física ou cognitiva na rede pública de ensino, os quais exercem um trabalho também de atenção em saúde, mas não são remunerados para tal.

“Temos visto, seja na saúde, seja na educação, o crescimento do burnout, pois há a exploração do trabalho com a busca de metas. O nosso serviço fica sobrecarregado. Especialmente em ano eleitoral, a pressão sobre os servidores públicos é cada vez maior. Às vezes, eu ouço profissionais dizerem que não podem atender o munícipe como queriam, pois faltam condições de trabalho, ou seja, falta a ferramenta ideal para o trabalho na educação, na segurança pública e na saúde para atender melhor”, lamentou.

Beto Souza e Marcos Rubens reforçaram que a carga excessiva de trabalho e pressão em todas as categorias profissionais tem gerado uma série de doenças físicas e mentais e o afastamento dos trabalhadores.

“Nós, trabalhadores, que geramos o lucro para quem está no topo da pirâmide, não temos o retorno nem de 1% daquilo que estes grandes ganham a nossas custas”, afirmou Jefferson.  

O FUNCIONAMENTO DO SÍNDICATO

Localizado no bairro da Liberdade, o SinSaúdeSP realiza atendimentos presenciais de segunda a sexta-feira, das 7h às 16h, incluindo os serviços de psicologia, ginecologia, medicina do trabalho e advocacia aos sindicalizados. Aos sábados e domingos, os atendimentos ocorrem apenas em ocasiões específicas, como em campanhas e grandes mobilizações.

Jefferson destaca que o Sindicato tem estado aberto às organizações sociais para que façam eventos no anfiteatro – com capacidade para mais de 500 pessoas – e nas oito salas de aula na escola que há dentro do espaço, no qual às sextas-feiras à noite há um cursinho popular.

No sindicato, também existe um espaço para a produção de podcasts sobre saúde. “Falar de saúde e educação também é uma maneira de formação social, e bem formar as pessoas é uma maneira de tirá-las da mesmice, para que tenham entendimento sobre seus direitos”, explicou Jefferson.

O Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Saúde de São Paulo está localizado na Rua Tamandaré, 393, Liberdade (próximo ao Metrô São Joaquim). Saiba mais detalhes pelos seguintes canais:

Instagram e Facebook: @sinsaudesp

Telefone: (11) 3345-0043

WhatsApp: (11) 94327-9025

Site: https://sinsaudesp.org.br/

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