Nega Núbia é entrevistada na estreia do ‘Samba de Raiz Feminino’
Cantora, artista independente e com uma longa trajetória no mundo do samba, incluindo passagens por grandes escolas de samba de São Paulo. Esta é Nega Núbia Oliveira, 45 anos, a primeira entrevistada do quadro “Samba de Raiz Feminino”, que irá ao ar mensalmente no programa ‘Revista da Semana’.
A estreia foi em 29 de agosto, com a apresentação de Beto Souza e de Karina Bispo, recém-chegada à equipe de comunicadores da rádio Cantareira FM.
“O quadro ‘Samba de Raiz Feminino’ surge com a missão de exaltar a força, a cultura, a arte, a ancestralidade e a caminhada de todas as mulheres sambistas que mantêm acesa esta chama da cultura popular, que é o samba. Então, salve o samba! Salve todas as mulheres sambistas do nosso Brasil, da nossa São Paulo e da nossa Vila Brasilândia!”, afirmou Karina no começo do programa.
AOS POUQUINHOS, NAS RODAS DE SAMBA…
Nega Núbia nasceu na Freguesia do Ó, mas apenas com 11 meses de vida sua família mudou-se para o bairro de Taipas, onde passou toda a sua infância e adolescência nos grupos de samba. “Eu era rueira, gostava de estar no meio das rodas de samba, não cantava, mas ficava batendo sempre na palma da mão e nos ‘taquinhos’. Foi uma infância e uma adolescência muito feliz com esta galera”.
Anos depois, Nega Núbia voltou a viver na Freguesia do Ó e sempre que podia ia às rodas de samba, mas nunca havia passado pela sua cabeça ser a cantora destas ocasiões.
“Eu entendia que no samba eu tinha que estar do lado de fora e levava meus amigos para curtir as rodas de samba que eu frequentava. Eu não entendia estar ali pra cantar, mas simplesmente estava ali por já amar o samba. Com o carnaval a mesma coisa: nunca pensava que iria cantar um dia. O sonho era ser princesa, até rainha de bateria, mas meu pai falava ‘rainha de bateria não dá, pelada você não vai desfilar não’”, comentou.

UM DIA, ELA FOI CHAMADA PRA CANTAR
Já adulta, Nega Núbia sempre frequentava o espaço Estação Mandaqui aos finais de semana para curtir a feijoada e a roda de samba. Certa vez, pediu uma música, mas os cantores da ocasião não sabiam o tom. “Mas ela canta”, gritou um amigo. “Mas eu só cantava nas rodas de samba, nunca em microfone. A música que eu pedi era ‘Fogueira de uma paixão’. Eu cantei, todo mundo gostou, e dali foi. Comecei a cantar no Estação Mandaqui todo sábado”, recordou.
O ano era 2016. Meses depois, sua tia, Duda Ribeiro, que era do Camisa Verde e Branco, a chamou para ingressar na ala musical da escola, que já se preparava para os desfiles do carnaval de 2017 no grupo de acesso. “Eu desfilei com o coração saindo na boca”, contou.
“Se foi difícil começar a cantar no carnaval? Eu digo que não. O difícil até hoje é lidar com a emoção de estar cantando no carnaval, pois é o pavilhão que você ama, mas outra coisa é o profissional. E mesmo quando estou em uma escola pra cantar, mesmo que não seja do pavilhão que eu tenho dentro de mim, eu estou na escola com o coração e com aquele pavilhão, estou junto com a comunidade. Se tiver de chorar, eu vou. Se tiver de me emocionar, eu vou. É garra sempre!”, assegurou.
O TALENTO ABRIU MUITAS PORTAS
Depois daquele carnaval de 2017, Nega Núbia foi convidada para a ala musical da Unidos do Peruche, que desfilou no grupo especial do carnaval de São Paulo em 2018. Lá conheceu a Bernardete que foi uma mestra na sua trajetória, que a ensinou ter “energia e sutileza” ao soltar a voz.
Naquele ano, a Peruche caiu para o grupo de acesso. Em meio a alguns ensaios, ela teve contato com o Carlos Júnior, o Carlão, intérprete da Império de Casa Verde, que tempos depois a convidou para ingressar na outra escola. Nega Núbia foi para lá cantar, mas entre 2019 e 2024 permaneceu colaborando na montagem das alegorias da Peruche, com o seu esposo à época. Até hoje, ela também canta na escola “Só vou se você for”, que é a escola de samba que ela participa em Taipas.
“A minha essência eu não perdi. Eu sou cantora, tenho também meu trabalho CLT, mas estou sempre no barracão da escola ajudando”, disse. Atualmente, Nega Núbia trabalha no departamento administrativo de uma empresa e no carnaval está na ala musical da Águia de Ouro.

INSPIRAÇÕES
Nega Núbia também falou de suas referências e inspirações no samba. Uma destas mulheres é Leci Brandão: “Ela é uma grande referência pra mim, graças a Deus está ainda aqui com a gente”.
Também admira muito Beth Carvalho, que ela cresceu ouvindo, e dona Ivone Lara. É ainda fã de Roberto Ribeiro e muito especialmente de Mauro Diniz.
No ano passado, ela foi indicada para um trabalho com Mauro. “Eu quase cai de costas. Eu fui, cheguei ao estúdio para fazer os ensaios, fizemos o show na Casa Natura, fui como backing vocal, mas ele me chamou para cantar no show. Ali foi uma virada de chave em tudo, pois eu cantei com o meu ídolo, é alguém que tem uma história muito forte na minha vida musical e pessoal”, recordou, destacando que este trabalho lhe abriu portas, pois ingressou na banda fixa do Mauro Diniz para cantar no Bar Brahma da Avenida Paulista aos sábados.
Nega Núbia também recordou com carinho a convivência com Reinaldo, o Príncipe do Pagode: “Ele me ensinou muito sobre humildade, sobre este lance de ser verdadeira, de não baixar a cabeça no mundo musical. Se algum homem tiver algum intuito de me diminuir ou de querer ganhar alguma vantagem em cima, eu aprendi com o Reinaldo a sair dessa com categoria. Eu aprendi muito com o ‘veinho’”.

AS DIFICULDADES PARA A MULHER NO SAMBA
Na parte final da entrevista, Beto Souza e Karina Bispo dialogaram com Nega Núbia sobre as dificuldades que as mulheres enfrentam no mundo do samba. Uma delas, segundo a cantora, é comum a muitos artistas independentes: não ter dinheiro para gravar um trabalho autoral.
“Eu não tenho patrocínio, eu não tenho empresário. Sou eu sozinha na minha música diária. Existem 3 músicas que eu ganhei de três compositores amigos meus pra gravar, estou vendo com dois amigos que têm estúdio. Em breve vai sair esta produção, mas eu vou custear do meu bolso, então, é muito difícil”.
Ela relatou que algumas vezes já houve homens que se “dispuseram” a ajudá-la, mas sugerindo “compensações”, que ela não aceitou. “Eu prefiro fazer as coisas no meu tempo, com dignidade, sem pisar em ninguém, sem passar por cima de ninguém, sem aceitar nada de ninguém com segundas intenções”.
Em outras situações, nem sempre o cachê por um show é pago ou o dinheiro demora a chegar: “Não é fácil ser músico. Nós amamos o que fazemos, mas não é fácil”.
Nega Núbia disse que recorrentemente enfrenta preconceito nas rodas de samba pelo fato de ser mulher.
“Uma mulher cantando na roda de samba já tem o brilho próprio por ser mulher, pois antes se achava que este ambiente era só para homens, mas hoje a mulher canta, a mulher toca, e isso parece que fere o orgulho masculino”, disse, recordando que se ela canta e as pessoas a elogiam demais, percebe um certo incômodo dos homens cantores e que alguns “com o ego ferido, não querem dar mais a oportunidade para que você não brilhe mais do que eles. Lidar com ego é muito difícil, e até entre mulheres, infelizmente, também tem isso do ego”, mas diante destas situações “a minha resposta é sempre com um sorriso e pedindo um tom e cantando”.
Ela também comentou sobre algumas contradições sobre o reconhecimento das mulheres no samba: “Tem algumas casas de samba que eu trabalho em que enaltecem a dona Ivone Lara, mas eu sendo mulher não posso cantar. Olha ‘que legal’? Não posso soltar minha voz, não posso trabalhar a minha arte, pois na cabeça de quem idealiza isso a mulher deve estar ali só pra fazer coral e pra bater na palma da mão. E daí, me resta ir galgando lugares onde eu seja aceita e seja reconhecida pelo meu trabalho, pela minha voz e como mulher. Não posso me diminuir para caber em um espaço. Tenho que ir tentando mudar isso. Se eu não conseguir, pelo menos eu tentei”.
“As vezes as pessoas veem a gente cantando no palco, mas nem imaginam o que é a vida de um artista por trás daquele sorriso largo”, prosseguiu.
Nega Núbia afirmou ver positivamente que cada vez mais o samba se mostre espaço de resistência à violência contra a mulher, com letras que faziam menção ao domínio dos homens sobre as mulheres deixando de ser cantadas e com algumas letras atuais tocando nestas realidades.
“Hoje eu entendo que estando com o microfone na mão eu tenho voz. E quando fazem uma música que retrata a violência contra a mulher e como ela pode se defender este é sim um meio muito importante de pedir socorro, de chamar a atenção da sociedade e ir pra cima do problema por meio da música”.

O PODER DA MÚSICA
Por fim, ela comentou que cantar é mexer com emoções e que quando canta nas rodas de samba e outros locais se atenta às pessoas, especialmente aos casais, que chegam não tão unidos, cada um olhando para seus celulares, e tenta fazer com que alguma das músicas façam as pessoas se envolverem.
“Eu sinto que quando a gente canta com sentimento, a gente tenta atingir a pessoa em algum lugar: se não for no coração falando de dor de amor, eu vou tentar cantar algo que remete a algum momento da sua vida, que traga algo feliz de um passado ou recente ou que lhe faça chorar por uma saudade”, afirmou.
Os trabalhos de Nega Núbia podem ser acompanhados pelo Instagram @neganubiaoliveira.
ASSISTA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA DE 29 DE AGOSTO
