No ‘Comunidade em Foco’, Mera Meramolim analisa, à luz da Filosofia, o mundo atual

“Minha primeira identidade é ser nordestino. Sou piauiense e pertenço aos ‘Estados Unidos do Nordeste’”. Assim José Mera Meramolim Santos apresentou-se aos ouvintes da rádio comunitária Cantareira FM ao participar da edição de 13 de agosto do programa “Comunidade em Foco”.

Por quase uma hora e meia, ele dialogou com Adão Alves sobre conceitos de Filosofia e como estes ajudam a entender os dilemas da sociedade atual.

O DESAFIO DE ENSINAR FILOSOFIA

Mera Meramolim, como é mais conhecido, recordou que quando deixou seu estado de origem aos 18 anos e veio para São Paulo, tinha um único propósito em mente: estudar.

“Durante cerca de 30 anos, eu estive dentro das escolas, primeiro como estudante, e, em outra grande parte, como professor do ensino médio na rede pública e, depois, como professor universitário”, contou, detalhando ainda que fez mestrado em Filosofia.

Segundo entrevistado, as escolas públicas têm sentido o impacto da falta de disciplinas nas áreas de humanas na grade curricular. “Eu como filósofo, penei muito dentro da rede pública, porque na minha época herdei uma parte dos ranços da ditadura militar e mesmo com governos mais democráticos, eu penei muito, pois não era professor efetivo. Eu também eu sofria com a perseguição de alguns diretores de escolas que não gostavam da disciplina nem a colocavam dentro do currículo”.

“O ensino de Filosofia na rede pública sempre foi muito difícil, porque é necessário de um tempo razoável para discussão, mas o tempo de aula costuma ser muito reduzido. Além disso, o saber filosófico precisa ser iniciado, ou seja, se o aluno não é treinado desde muito cedo a pensar, ele vai se assustar com alguns argumentos filosóficos. O ensino da Filosofia é um saber que exige reflexão e nem sempre o aluno está preparado para tal. Também há impaciência destes tempos modernos, em razão da velocidade da comunicação. Sempre foi muito difícil ensinar Filosofia, mas nos últimos tempos está mais difícil ainda”, prosseguiu.

DE MÚSICO A FILÓSOFO AUTOR

Mera Meramolim montou uma banda nos anos 1990, a qual se apresentou em grandes shows, como no vale do Anhangabaú, em praças no grande ABC, teatros, casas de cultura da zona Leste da capital paulista e também nos SESC.

A banda chegou ao final no ano de 2002. Em 2017, ele se aposentou como professor e, desde então tem se dedicado à escrita. Em 2018, lançou o livro “Rousseau: a degeneração do homem no progresso civilizatório”, fruto de sua dissertação de mestrado, focado em temas de humanas que mais lhe causam interesse: “Um destes temas é a questão da desigualdade, e para falar sobre ele, encontrei em Jean-Jacques Rousseau o autor que mais me trazia luzes para este tema”.

Mera Meramolim enfatizou que a desigualdade “é a fonte de todos os males que temos na sociedade no mundo inteiro. A desigualdade é a causa principal da violência, da ganância, da avareza, da prostituição, do individualismo doentio, de todas as formas de violência, é a fonte de todos os males sociais”.

A IGNORÂNCIA

Como filósofo, Mera Meramolim tem grande apego ao sentido das palavras. No programa, refletiu sobre “ignorância”, que pode ser sinal de desconhecimento sobre algo sobre o qual ainda não se aprendeu, mas que para alguns tem sido vivenciada de modo deliberado.

“A ignorância má é aquele em que a pessoa tem orgulho de ser ignorante, que é esta nova onda que vemos principalmente entre os bolsonaristas. Eles parecem ter orgulho em ser ignorantes, mas não só isso. Também gostam de ser estúpidos. Essa é a ignorância má. Fora isso, ser ignorante significa apenas não saber sobre algo. Eu, por exemplo, sou ignorante em Medicina e em tecnologia”.

Ainda segundo o entrevistado, ao longo da história muitos são os relatos de pessoas que parecem sentir uma espécie de encanto com as coisas que são ruins para a humanidade: “Hoje existe gente que se encanta com as maldades do Trump, tem gente no Brasil que quer abrir as portas para domínio de outras nações, quer mais exemplo de nazifascismo do que isso?”.

ESQUERDA, DIREITA, ELITES

Mera Meramolim explicou ainda o conceito de forças políticas de esquerda e de direita: “Essa discussão sobre o que é Esquerda e o que é Direita surgiu na França, no século XVIII, conforme o lado em que os agrupamentos políticos se sentavam ao lado do Rei. Quem estava do lado direito é porque apoiava o antigo regime, que era a junção do poder religioso e do poder político do monarca. Já quem estava defendendo os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade estava do lado esquerdo. Estamos falando de uma época do preâmbulo da Revolução Francesa de 1789”.

Ela também comentou sobre a formação das elites em pequenos burgos, que controlavam o poderio econômico, e que hoje são representadas pelas big techs e os milionários que são capazes de influenciar governos e ditar as regras da economia: “O dinheiro é quem manda. Não se tem uma democracia, mas sim uma plutocracia mandando em governos”.

E a Filosofia existe justamente para fazer com que as pessoas entendam estas forças que regem os movimentos da humanidade. Entretanto, segundo ele, tem sido projeto de governos estaduais a retirada do ensino da Filosofia a fim de que os estudantes não tenham este olhar mais crítico para a realidade: “Quando um governo tira propositalmente as aulas de humanas da rede pública é para evitar que os alunos conheçam os verdadeiros fundamentos históricos de certas sociedades que querem mandar em nós, que querem nos tratar como quintal. É mais fácil virar vítima do que se rebelar com o sistema”.

Ainda segundo o filósofo, “em todos os tempos, as sociedades tiveram suas ilusões com os mitos e hoje nós temos uma grande ilusão com os objetos. As ilusões, que o Rousseau já denunciava no século XVIII, hoje mandam na nossa alma: as ilusões mercadológicas, as dos modismos, as ilusões religiosas, as ilusões com a aparência das outras nações”.

A ÉTICA E A MORAL

Por fim, Mera Meramolim detalhou os conceitos de ética e moral, sobre os quais escreve detalhadamente no livro “Por que não confundir a ética com a moral?”

A ética, conforme explicou, é um fenômeno social, que nasce junto com a arte política: “Os gregos pensaram a ética como um caminho para a construção do supremo bem, o bem comum. Portanto, a ética, ao mesmo tempo que significa um ato bom, só pode ser um ato bom se leva à construção do Supremo Bem”. A ética, portanto, é universal, pois pensa no bem toda a humanidade, com vistas à felicidade de todos.  

Já a moral relaciona-se à cultura, hábitos e costumes de cada povo. “A moral, portanto, não é universal, pois depende de cada cultura e até de cada família”.

Ele detalhou, ainda, que existe um moral civil, uma moral política e uma moral religiosa.

“Filosofar é aprender morrer para as ilusões do mundo humano”, disse ao concluir a participação no programa.

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