Depois dos 30 anos, o diagnóstico de autismo ajuda Hugo Ribeiro a reconstruir a própria história
Durante boa parte da vida, Hugo Ribeiro percebeu que enfrentava dificuldades diferentes das vividas por seus colegas, mas não sabia explicar por que. Na infância, preferia conversar com professores a brincar com outras crianças, tinha dificuldade para fazer amizades e sofreu episódios de bullying. A resposta só veio depois dos 30 anos, quando recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Atualmente estudante de Psicologia e profissional da área de criação, Hugo contou sua história na edição de 9 de setembro do programa ‘Comunidade em Foco’, na rádio comunitária Cantareira FM, às apresentadoras Nice Brandão e Juçara Terezinha.
O diagnóstico tardio, a reconstrução da identidade, as relações familiares, a arte, o mascaramento e a experiência escolar foram alguns dos temas discutidos na ocasião.
‘PRATICAMENTE GABARITEI NO BULLYING’
Hugo recorda a infância com uma mistura de humor e dor. “Dos oito tipos de bullying, eu sofri seis. Eu praticamente gabaritei”, relatou.
“Eu não entendia por que estava passando por tantas barreiras e dificuldades. Na adolescência, eu não entendia, mas já desconfiava que tinha alguma coisa errada, só não sabia o que era”, afirmou.
A sensação de perceber que existe uma diferença, sem conseguir explicá-la, acompanhou Hugo até a vida adulta. O diagnóstico veio depois que ele próprio começou a pesquisar sobre autismo e se reconheceu em algumas características.]

O DIAGNÓSTICO COMO PONTO DE VIRADA
Ao ser perguntado sobre a reação ao receber o laudo, Hugo respondeu com uma palavra: “Alívio. Eu tive a oportunidade de reconstruir minha identidade”.
Ele contou que experiências negativas, sobretudo no convívio próximo, afetaram profundamente a forma como se enxergava. O diagnóstico não apagou o passado, mas ajudou a reorganizar a própria história.
“Agora eu estou na fase de reconstrução da minha identidade. Eu falo que sou uma mistura de fênix com lobo”, comparou.
A investigação levou quatro meses e foi realizada pelo SUS. Hugo fez questão de destacar o atendimento recebido: “Eu só tenho a agradecer ao SUS. O SUS precisa ser mais valorizado pelas pessoas”.
Para ele, compreender o autismo também ajudou a afastar uma culpa carregada por anos: “Você se liberta da culpa. Não foi culpa minha”.
UMA VIOLÊNCIA DIFÍCIL DE RECONHECER
Hugo afirmou que a decisão de buscar por um diagnóstico veio depois de pesquisas sobre autismo e da percepção de que algumas descrições correspondiam à sua trajetória.
Ele também relatou ter crescido em uma família que define como disfuncional e associou essa experiência a episódios prolongados de violência psicológica e emocional.
“Eu sou de uma família disfuncional, o que me gerou violência psicológica e violência emocional. Deixou cicatrizes, deixou sequelas que não vão passar tão cedo”, afirmou.
Segundo Hugo, a violência psicológica pode ser difícil de identificar porque não deixa marcas visíveis como a violência física: “As pessoas, até da própria família, convencem você de que é coisa da sua cabeça, que você está inventando, que está ficando maluco”.
Ele disse que não recebeu apoio da família especificamente na busca pelo diagnóstico, embora tenha sido apoiado em outras áreas da vida. Para Hugo, o desconhecimento sobre o autismo contribuiu para que a situação permanecesse sem resposta durante muitos anos.

A ARTE COMO FORMA DE EXPRESSÃO
Hugo se descobriu escritor aos 13 anos, durante uma aula de português. Hoje, escreve roteiros de cinema, peças de teatro e livros. Também trabalha como designer gráfico e afirma ter um portfólio com mais de 800 imagens.
A produção artística tornou-se uma maneira de expressar experiências que, muitas vezes, não eram compreendidas nas relações sociais.
“Como a sociedade não escuta a gente, a gente conversa com a arte, por isso que a gente se torna artista”, resumiu.
No caso de Hugo, o interesse intenso pela escrita e pelas artes passou a ocupar um lugar importante na sua trajetória. Ele relaciona essa concentração ao hiperfoco, condição comum às pessoas autistas, pela qual têm foco intenso em determinados assuntos ou atividades.
A MÁSCARA SOCIAL E O ESFORÇO PARA SE ADAPTAR
Antes do diagnóstico, Hugo também passou anos tentando esconder comportamentos e sentimentos para se adaptar às expectativas sociais. Ele descreveu esse processo como uma máscara social.
“Antes do diagnóstico, a gente utiliza aquela máscara social para se adaptar a uma sociedade preconceituosa que não tem autoconhecimento”, explicou.
Depois do laudo, começou a deixar de usar a máscara o tempo todo. A comparação que encontrou foi com uma peça de roupa: algo que pode ser usado quando necessário, mas que não precisa permanecer o dia inteiro.
“Depois do diagnóstico, você não é mais dependente daquela máscara. Você usa quando necessário. É como uma blusa: está frio, você usa para se aquecer”, afirmou.
Hugo também falou sobre as estereotipias, movimentos repetitivos que podem ajudá-lo a se autorregular em situações de desconforto sensorial. Barulho, lugares cheios e excesso de estímulos são situações difíceis para ele. Música e leitura também ajudam.

ENTRE ACOLHIMENTO E PRECONCEITO NA ESCOLA
Hugo diz que, de modo geral, encontrou acolhimento nas escolas que frequentou, mesmo em uma época em que pouco se falava sobre autismo.
“As escolas tinham muita empatia. Eu recebi todo o acolhimento que precisava”, contou.
Houve, no entanto, uma experiência traumática no jardim de infância. Uma professora escreveu uma carta para a mãe de Hugo com comentários ofensivos e sugeriu que ele fosse encaminhado para uma escola destinada a pessoas com deficiência intelectual. Ele tinha sete anos.
A primeira vez que ouviu a palavra “autismo” veio de outra professora, de educação física, que questionou o comportamento da colega e levantou a possibilidade de Hugo estar no espectro. O episódio mostrou como a atenção dos educadores pode contribuir para a identificação de sinais e para o encaminhamento de uma família.
A entrevistadora Juçara Terezinha também relatou a experiência de um sobrinho que abandonou a escola sem que a instituição procurasse entender o motivo. A lembrança ampliou a discussão sobre a responsabilidade das escolas diante de dificuldades de aprendizagem, socialização e permanência.
Para Hugo, professores e familiares precisam observar sem transformar diferenças em motivo de exclusão. A escola pode ser o primeiro lugar a perceber que uma criança precisa de apoio, mas o encaminhamento deve ser feito com respeito e cuidado.
AUTOCONHECIMENTO E APOIO ÀS FAMÍLIAS
“A maior liberdade que o diagnóstico me trouxe foi o autoconhecimento. E eu quero usar esse autoconhecimento para ajudar as pessoas”, afirmou Hugo.
Foi também por esse motivo que escolheu estudar psicologia. Ele pretende compreender melhor a própria trajetória e desenvolver projetos sociais para ajudar pessoas que passam por situações semelhantes.
Ao final da entrevista, Hugo recomendou que famílias e educadores observem mudanças que prejudiquem o convívio social, sem transformar qualquer característica de personalidade em diagnóstico. Citou como exemplo uma introversão que ultrapasse a preferência pessoal e passe a comprometer o cotidiano.
“Ser introvertido ou extrovertido faz parte da personalidade, mas uma introversão excessiva que atrapalha o cotidiano social já pode ser um alerta”, explicou.
Hugo também defendeu que as famílias não escondam nem ignorem sinais de sofrimento. Para ele, oferecer apoio significa escutar, ter compaixão, acolher e procurar ajuda profissional quando necessário.
“Eu quero ajudar as pessoas, para evitar que passem pelo sofrimento que eu passei”, afirmou por fim.
VEJA A ÍNTEGRA DO COMUNIDADE EM FOCO DE 9 DE SETEMBRO
