Na Cantareira FM, Milton Paulo conversa sobre empreendedorismo periférico
Nascido e criado na Vila Brasilândia, por décadas trabalhador do ramo de reforma e construção, Milton Paulo ‘virou a chave da vida’ com mais de 40 anos de idade quando decidiu retornar aos estudos para concluir o ensino fundamental e Médio. Hoje, ele é voz requisitada em muitas associações e bairros para falar sobre empreendedorismo periférico, assunto sobre o qual conversou com Beto Souza na edição de 12 de fevereiro do programa ‘Comunidade em Foco’ na Cantareira FM.
“O empreendedorismo periférico não é uma coisa de agora, ele está nas nossas veias há muitos anos, mas não tinha um formato especificado, não se usava ainda esta palavra empreendedorismo, que só tomou corpo na década de 2010, com o crescimento do MEI [Microempreendedor Individual]. O empreendedorismo social tem como vertentes o social, o negócio, o ambiental verde e o digital”, detalhou.
NÃO BASTA TER UMA BOA IDEIA
Ao longo do programa, Milton Paulo deu muitas orientações para os que desejam empreender estando na periferia. A primeira delas é sempre anotar uma boa ideia que eventualmente tenha sobre montar um negócio.
“Como a gente pensa demais, chega uma hora que muitas informações se apagam, mas aquilo que se escreve e se guarda estará sempre lá, próximo de você. E é aquele papelzinho que vai dar o gatilho para aquilo que talvez o seu cérebro fingiu esquecer, mas, na verdade, está em sua mente em algum arquivo parado, não ativado”, explicou.
Só a boa ideia, porém, não é o suficiente. É fundamental se educar bem – estudar – para entender o que se quer fazer como empreendedor: “Muitas vezes você tem o dinheiro, quer montar um determinado negócio, mas para isso vai ter de estudar toda a cadeia de onde você vai colocar o seu empreendimento. Por exemplo: não basta ter dinheiro e pensar, ‘vou abrir uma loja para vender capinha de celular’, mas a região onde eu vou vender é mórbida”.
COMO COMEÇAR A EMPREENDER?
Segundo Milton Paulo, a maioria dos empreendedores periféricos começam a fazê-lo a partir da “ferida de um desemprego”, conforme detalhou: “A pessoa pega o valor que recebeu da empresa pela demissão e daí começa a empreender a partir do que sabe fazer. Começa dentro de casa e chega aos clientes. Costumo dizer que fazer cliente não é difícil, o difícil é fazer com que ele seja seu amigo fiel, pois é daí que o negócio começa a crescer. E a maioria das pessoas querem ir para uma avenida alugar um ponto para montar o comércio, mas isso, muitas vezes, é uma doce ilusão, ainda mais hoje com o delivery”.
“Se você tem como produzir da sua casa e mandar entregar para o cliente, continue onde está, pois quase sempre você não vai conseguir pagar o aluguel. Para você começar a patinar ou ver lucro do seu empreendimento, você vai demorar de dois a três anos”, alertou.

AS ILUSÕES DOS MAIS JOVENS
Milton recordou que virar um grande influencer digital, um conhecido jogador de futebol ou um cantor de funk são sonhos comuns de muitos jovens nas periferias da cidade: “Nada disso está errado, todo mundo tem sonhos, mas é preciso sonhar com os pés no chão, pois se você quer ser tudo isso e você não se educar dentro disso não vai adiantar nada. Dê um passo para trás, como eu fiz, e vá procurar a educação, se forme, pois assim, interagindo com outras pessoas, você vai entender quais caminhos você quer realmente tomar”, comentou.
“Não é o clique que irá fazer de você um bom influencer. O que fará de você um bom influencer é se formar primeiro, para que você tenha conteúdo a oferecer. No começo, treine seu conteúdo, e isso se faz errando mesmo, até que chegará uma hora que você vai achar o seu nicho, o seu ponto de partida”, explicou.
Ao jovem que se frustra porque o vídeo que fez “não bombou” tanto quanto o de outra pessoa, Milton recomenda: “Não se fruste. Tenha calma. Estude, pois uma hora as coisas mudam. Se eduque, se entenda, continue estudando. Equilibre emoção e razão. Se não colocar a razão junto, não vai sair do lugar. A razão é uma coisa que dói, por isso muita gente não gosta”.
O palestrante também enfatizou que não existem mágicas para se alcançar um sucesso meteórico: “O empreendedorismo periférico é garimpo, porque a gente não é filho de papai”.
VENCENDO O MEDO DE EMPREENDER
Beto Souza perguntou a Milton Paulo porque muitos adultos ainda têm medo de empreender. O palestrante explicou que isso é natural, mas que pode ser usado para fazer as coisas mudarem: “A pessoa tem de sentir que aquele fervor do medo é um gatilho para poder ter o positivo. A gente na periferia vive em cima na navalha e, assim, é natural que tenha medo, pois o recurso contado, as pessoas têm filhos para criar, tem o aluguel e outros gastos. Mas recomendo a você: pause e entenda a situação. Escute a si mesmo e descubra o que o seu eu está falando: pra você ir em frente? Pra você pausar? Pra você esperar? Pra você estudar?”.
A etapa seguinte, segundo Milton, é que a pessoa anote todos os seus sonhos e sentimentos: “Quando a gente escreve, vai ganhando confiança, pois vai jogar tudo que está dentro da gente, todo o emocional, lá na folha de papel. Depois, a pessoa vai entrar na razão e o cérebro vai entender tudo que ela falou e se passará à parte de execução”.
Milton comentou que é indispensável se decidir por qual local se fará este empreender, considerando se haverá mercado consumidor para tal: “É daí que começa a se moldar a execução do negócio. Quando você tiver os moldes da sua execução, vai entender o que é empreender”, explicou, destacando que quem não faz isso com cuidado depois de poucos meses quebra o próprio negócio.

ERROS MAIS COMUNS
Milton Paulo lembrou que um erro muito comum de quem começa a empreender é a sede do “eu quero lucro, quero lucro, quero lucro”, que faz com que a pessoa facilmente desanime, pois não verá o lucro de imediato.
Também é uma falha comum que as pessoas ao começarem a ter bons resultados como empreendedoras se distanciem do cotidiano do próprio negócio, deixando aos cuidados de outrem: “Este é um erro fatal, pois o que é seu é seu, o que é dos outros é dos outros. Ninguém vai cuidar tão bem quanto você”.
Outra fala é não se preocupar em fidelizar o cliente, o que não é sinônimo de querer que ela só vá ao estabelecimento para consumir: “Se preocupe em saber como está seu cliente, se ele está bem. Com isso, ele vai voltar outra vez. E sabe por quê? Porque ele se sentiu abraçado. Ele verá em seus olhos a sinceridade”.
E algo a se evitar ao máximo é o conhecido vender fiado: “Como você vai sustentar seu negócio inicialmente se você vai vender fiado?”, indagou Milton. “O empreendedor tem de entender que no calote, a pessoa paga certo da primeira vez; vem, compra a segunda vez e paga certo, mas daí ela aumenta a quantidade de compra e fala que vai pagar depois, só que não vai pagar mais, pois já conseguiu ganhar a sua confiança para dar o calote. Quando você entende isso, você vai arrumar problema: vão dizer que você é chato, que o sucesso subiu para a cabeça, mas entenda uma coisa: o seu fornecedor quer receber na hora”.
Milton também lembrou que tem sido cada vez mais comum pessoas que trabalham no regime de CLT também abrirem um negócio próprio, o que requer cuidados adicionais: “O CLT que também empreende deve saber bem qual será o seu caminho para poder estar presente em seu próprio negócio, e não ter de terceirizar o negócio. Se tiver de ter outras pessoas para fazer por você, se pergunte: quem são estas pessoas? Como elas farão por você?”.
CONHEÇA MAIS SOBRE MILTON PAULO

Milton Paulo tem palestrado muito em associações, especialmente no extremo da zona Sul da cidade de São Paulo. “Raramente sou chamado na zona Norte. Aliás, como é interessante essa dificuldade em se enraizar, de que as pessoas valorizem o que é da gente, valorizem as pessoas do nosso bairro”, concluiu.
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