No ‘Amizade Aberta’, professora Lúcia Peixoto fala sobre literatura e educação

Você já se perguntou quanto tempo leva para que alguém escreva um livro? De onde vem a inspiração do autor? E por que passar para o papel as ideias que habitam a mente o coração?

No caso da professora Lúcia Peixoto, a produção do livro “Herança Mal Dita” começou há mais de 30 anos, com manuscritos que ela escreveu e outras ideias que datilografou e que foi guardando. Mais recentemente, ela precisou superar um linfoma, um tipo de câncer, e em meio à trajetória que percorreu para se curar da doença, os manuscritos e as ideias culminaram no livro.

“Eu precisei voltar um pouquinho para dentro, cuidar de mim mesma, e aí eu descobri que tinha um monte de coisas aqui que eu queria contar para o mundo. Então, aproveitei, botei muita coisa nesta obra de ficção, uma novela que usando da ficção conta muitas ‘histórias mal contadas’. No livro, eu trago sérias reflexões sobre a história das mulheres, sobre a nossa vida e nossas lutas”, detalhou Lúcia na edição de 19 de fevereiro do Programa “Amizade Aberta”, apresentado por Anderson Braz na rádio comunitária Cantareira FM.

UMA HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA

Atualmente morando em Caieiras, na grande São Paulo, Lúcia Peixoto por anos viveu no distrito da Brasilândia, ao qual chegou com 13 anos de idade, semianalfabeta. Por 15 anos, trabalhou no chão de fábrica, todo dia pegando ônibus lotado no Jardim Santa Cruz para chegar até o emprego.

“Com o tempo, motivada pela Pastoral da Juventude e as Pastorais Sociais, eu voltei a estudar. Tinha 26 anos, e nessa volta aos estudos eu disse: ‘Quero ser professora’. Com quase 30 anos de idade, eu me formei professora e fui me especializar em Filosofia. Depois, comecei a escrever. Portanto, quando a gente acredita e quer, a gente corre atrás, a gente luta para conseguir”, afirmou a professora.

Ao longo dos anos, Lúcia Peixoto também se tornou uma das referências nas lutas pela melhoria da qualidade da educação no bairro e se mantém engajada neste propósito como docente da rede estadual de ensino, embora não mais como professora em sala de aula.

Lúcia, que leciona Filosofia em uma escola estadual em Caieiras, comentou sobre as dificuldades que vem enfrentando na profissão: “A Filosofia foi totalmente retirada do enredo das escolas. Aos que estão tão preocupados com a família brasileira, a gente chama a refletir sobre qual o lugar dos nossos filhos na escola pública, que agora está praticamente sem Filosofia, sem Sociologia, sem espaço para reflexão crítica. E isso nos entristece”.

Como alguém que estudou a fundo as obras de Paulo Freire, ela se considera uma “esperançada”, e explica: “A gente que segue os passos de Paulo Freire não perde a esperança nunca”. Mas manter a esperança, está cada vez mais difícil.

“Antes, na escola, nós tínhamos a Sociologia, a Filosofia, e aí, quando aconteceu o golpe militar no Brasil, a primeira coisa que a ditadura fez foi retirar essas disciplinas da grade curricular. Nos anos que se seguiram, se colocou uma coisa chamada educação moral e cívica, que acabou levando muitos professores de Filosofia a fugir do país, mas nos organizamos, lutamos e trouxemos de volta para o currículo, a partir de 1990, a Filosofia, a Sociologia, e garantimos também as aulas de História, enfim, toda a grade de ciências humanas. Mas agora, novamente, em um período recente em que vimos de muito ataque a educação, se aprovou uma nova BNCC [Base Nacional Comum Curricular], que são as normas que regem a educação brasileira, e praticamente excluíram a Filosofia e a Sociologia, e diminuíram as aulas de História, pois a ideia é a de formar as pessoas somente para trabalhar, daí o que importa é a matemática e o português. Não que não sejam importantes estas disciplinas, mas educar não é só isso”, lamentou.

O ENREDO DE ‘HERANÇA MAL DITA’

Em ‘Herança Mal Dita”, livro que lançou em 21 de fevereiro em um sarau cultural na regional da Apeoesp em Franco da Rocha, Lúcia Peixoto conta que buscou trazer para a ficção parte de sua própria história, bem como “a história das nossas ancestrais que sofreram tantas opressões, e faço isso de modo fictício. Eu costumo dizer que aqui, nessas histórias, qualquer semelhança com a realidade não é mera coisa”.

“Eu começo a contar a história a partir do período da COVID-19, desse período de pandemia em que nós fomos obrigados a voltar para casa, voltar para dentro de nós mesmos. A partir daí, vou desenrolando um fio. Está muito lindo, estou muito apaixonada, muito feliz com o resultado”, prosseguiu a escritora.

Ela confidenciou que a parte que mais a emociona na obra é a que conta a história de duas famílias do interior do Brasil, “lá da roça, da fazenda. Nessa parte, eu vou falando, contando um pouquinho como é que se dá a luta por terra. Outra parte que eu mais gosto, é a que me remete à Pastoral da Juventude, à Pastoral da Comunicação, aos grupos de teatro. Eu quebrei muito a cabeça sobre como trazer essa história, que é a minha história, a história de tantos amigos querido. E outra parte do livro que eu gosto muito é quando consigo, por meio de algumas personagens, trazer a história do Brasil contada em uma peça de teatro que está dentro do livro. Eu acho que o resultado ficou muito bom”.

O PROCESSO DE ESCRITA

Lúcia observou que embora escrever um livro seja uma ação que depende de alguma inspiração, ela mais se fia no que sempre dizia o escritor brasileiro João Cabral de Melo Neto (1920-1999): “A arte de escrever é você sentar-se todos os dias, no mesmo horário, e entregar-se à labuta”. Assim, também para ela, o processo de escrita “é labuta, é trabalho. Mas como sou da Filosofia, de vez em quando a gente ‘viaja um pouquinho’, mas é preciso ter um método, traçar um objetivo, sentar-se e começar a escrever. Uma coisa muito interessante é que às vezes você pensa um monte de coisas quando começa a escrever, mas inspiração vai fazendo também o seu trabalho e a coisa vai saindo”, explicou.

A autora disse, ainda, que teve de lidar com o desafio de abordar questões polêmicas sobre a história do Brasil, mesmo que isso possa causar algum desconforto ao leitor: “Como é que eu conto uma história, ainda que fictícia, sem falar da vida como ela é? E aí, vêm os pensamentos: ‘Quem vai querer ler essa história? Quem vai querer vender essa história? Patrocinar uma história que conta coisas que o Brasil não quer contar?’. Às vezes, isso me fazia refletir em como editar o livro”.

A RETOMADA DAS PESSOAS AO HÁBITO DE LER

Na escola em que trabalha, Lúcia hoje conduz um projeto de imersão literária, que visa a despertar nos estudantes e em toda a comunidade escolar o desejo de ler. “Nós temos uma sala de leitura com grandes livros, então, eu tenho trabalhado um pouco com isso. E não é verdade que as pessoas não querem mais ler. Aliás, basta a gente ir a uma feira de livro para constatar a realidade, pois quase não se consegue andar pelos corredores”.

A escritora diz que cada vez mais se impressiona pelo crescente interesse dos jovens em ler, especialmente obras de ficção: “Eu acho que essa volta ao hábito de leitura tem um pouco a ver também com as mídias, com as redes sociais que trazem um pouco essa coisa de que é legal ler. E aí as pessoas vão se apaixonando pela leitura, mas é uma pena que o livro ainda seja um produto tão caro”.

Lúcia Peixoto afirmou ter planos de estar com sua obra em feiras de livro, especialmente para fazer contato com o público jovem e com as pessoas que não leem por falta de oportunidade de contato com bons livros.

Entretanto, há barreiras financeiras para estar nas grandes feiras: “Eu sou muito encantada com a vida. Por isso, pensei, ‘vou a todas as feiras de livro para mostrar minha obra, quero ir à Bienal’. Entretanto, levei um susto quando começaram a me mandar as propostas. ‘Como assim? Eu tenho que pagar tudo isso?’ Só para você ter uma ideia: na Feira do Livro de São Paulo, se for em um domingo, você paga cerca de R$ 1.000 para ficar por duas horas e ter seu livrinho em uma estante. É muito caro! Como é que o autor pequeno, que já custeia o restante do processo, vai participar? E tudo isso, depois, entra na conta do custo final do livro”, disse, explicando que os custos para a edição e impressão de um livro também são elevados.

A BUSCA DE NOVOS ESPAÇOS E SONHOS

A autora de “Herança Mal Dita” diz que tem planos de disponibilizar a obra também como e-book ou áudio-book, e que tem se valido das mídias sociais para divulgá-la.

“Estou vendendo cada exemplar do meu livro a R$ 60, um valor que é praticamente só para pagar os custo, é pelo prazer de ver essa história chegar na mão das pessoas. Como autora, não fico parada: uso a rede social para divulgar o livro, tem essa questão on-line. Eu leio muito on-line e sou viciada também em ouvir livro enquanto faço artesanato. O áudio-book é fantástico, porque vou aqui fazendo o meu crochê e alguém vai lendo pra mim. Portanto, é um mercado que a gente precisa entrar”.  

Ainda comentando sobre novas tecnologias, Lúcia Peixoto disse ter a convicção de que a Inteligência Artificial jamais conseguirá criar um livro por inteiro com a mesma sensibilidade humana: “Pode até se fazer parecido, mas trazer esse sentimento para o livro, eu acredito que só nós humanos conseguimos”.

Durante a entrevista, Lúcia Peixoto disse que já está trabalhando na produção de sua autobiografia, na qual suas memórias pela Brasilândia terão papel de destaque: “Eu cheguei à Brasilândia há 30 anos, vinda da Roça. Estive por muito tempo aí na Cantareira também, usando este microfone para transmitir os nossos sonhos. Então, eu tenho muita história para contar, que eu vou trazer em breve em livro. Será uma autobiografia romantizada também, histórica. Não parece, mas nós já passamos meio século de história, então há muita coisa para contar”.

Mas, por ora, ela quer celebrar cada momento com o novo livro, como se deu no lançamento em 21 de fevereiro: “Lançar este livro é uma grande vitória para mim. Tenho muitos motivos para agradecer o Papai do céu, a Mamãe do céu. Agradeço todos os dias por estar viva e por poder partilhar minha história”.

Por fim, ela faz uma recomendação a todos: “Que a gente nunca perca a capacidade de sonhar nem a coragem de lutar pelos nossos sonhos”.

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