‘Manas e Manhãs’ discute os riscos do avanço das escolas cívico-militares na periferia

Ao longo do ano de 2025, o programa ‘Manas e Manhas’ apresentou uma série de entrevistas com o tema “Escola não é Quartel”, alertando que o modelo das escolas cívico-militares, adotado em estados como o Paraná e São Paulo, representa um risco à educação democrática, além de trazer a militarização para a periferia das cidades.

Na edição de 5 de dezembro, Simone Preciozo entrevistou a professora Cláudia Regina Dias Branco Garcia, historiadora e pedagoga, que já trabalhou na Secretaria Municipal da Educação nos governos de Marta Suplicy e de Fernando Haddad. Atualmente, ela tem o cargo de coordenadora pedagógica na Prefeitura de São Paulo e integra o Coletivo Paulo Freire.

EDUCAÇÃO DEMOCRÁTICA X MILITARIZADA

Inicialmente, Simone Preciozo enfatizou que militarização na educação é antagônica à educação democrática.

Cláudia Regina ponderou que a palavra democracia vem perdendo um pouco do seu caráter conceitual, pois muitos hoje se dizem democráticos, mesmo estando em partidos políticos que pensam a sociedade de forma autoritária.

“Na educação, principalmente na educação freiriana, que é a que eu acredito, são pressupostos para uma escola democrática e cidadã, a escuta qualificada, o conceito de protagonismo, a diversidade de ideias que devem ser validadas dentro do currículo e das práticas educacionais”, disse Cláudia, destacando que o currículo de uma escola é o eixo norteador que a comunidade escolar assumiu como válido não só para as áreas de conhecimento, mas também para a formação de cidadãos para uma sociedade mais justa e democrática.

Cláudia enfatizou: “Não há possibilidade de juntar um currículo democrático, um currículo problematizador, quando bocas e ouvidos são silenciados, são tirados da frente, quando a estrutura hierárquica estabelece os princípios e as premissas da educação. Eu não acredito em educação militarizada”.

Professora Cláudia Regina

O ESFACELAMENTO DA EDUCAÇÃO

Segundo Cláudia Regina, o prosperar da escola cívico-militar na periferia será “o caos e talvez até o campo de concentração da pós-modernidade”, disse, recordando a elevada quantidade de adolescentes e jovens, principalmente negros, pretos, periféricos, que são assassinados pela polícia.

A professora ressaltou que a educação tem papel fundamental no processo de resistência. Segundo ela, em âmbito municipal “nós estamos há mais de três gestões na mão dessa gente, desse governo neofascista. O que nós estamos fazendo hoje dentro das escolas municipais é resistir ao status quo que está com foco na privatização, pois quanto mais privatizar os espaços públicos da educação, mais fácil é o controle”, disse comentando que o professor também tem a missão de trazer o pedagógico para o âmbito político e vice-versa, para romper com o ciclo vicioso das grandes elites e de seus representantes políticos:

RESISTIR

Cláudia Regina enfatizou que quanto mais as pessoas resistirem a esse modelo, “mais iremos trazer para o currículo e para a vida desses sujeitos, elementos de resistência, de revolução. Assim não dá para aceitar passivamente que projetos nefastos, como o da militarização escolar, passem de uma forma tranquila. É preciso envolver a comunidade, ue não se restringe apenas a alunos e professores, mas uma politização do movimento contrário às escolas cívico-militares, sabendo que nós iremos perder muito e que o funil, que já é imenso, vai estar cada vez mais propício a deixar essa galera, essa molecadinha, essa população periférica às margens da tecnologia, das riquezas e de tudo mais. Por isso, o currículo e as ações, os projetos, são molas propulsoras para a resistência”.

Simone alertou que os governantes que estão à frente deste desejo de militarizar a escola têm ido a outros países conhecer tecnologias de opressão dos mais pobres nas periferias, e que essa ideia chegará também às escolas, pois a sociedade está permeada por uma ideia de violência e acredita que o combate à criminalidade passa por mais truculência do Estado.

CONSCIENTIZAR

Cláudia disse que falar deste tema com a comunidade escolar tem sido cada vez mais desafiador, e isso se deve a alguns fatores como a não neutralidade dos grandes veículos de mídia, que resulta em uma sociedade alienada, “aquela alienação em que a pessoa não reflete, em que ela faz parte de uma massa oprimida. A mídia tem um lado, e o lado não é o mesmo da população pobre, nem do menino negro, tampouco do indígena. É o lado dos ‘bolsonaros da vida’”.

Criticou ainda os “conglomerados religiosos da fé”, os “mercenários da fé”, que tentam influenciar em todos os espaços: “Eles se infiltraram nos conselhos tutelares, no Conselho Municipal de Educação, nos espaços políticos, e isso aparece muito dentro da escola, inclusive no currículo. Há pais que, às vezes, entram na escola dizendo que esse livro não pode ser lido porque ele é doutrinador, comunista. E daí você tem que lutar com unhas e dentes para defender o currículo da sua escola, para defender o direito a uma educação plural e democrática de verdade. Não é fácil. Não há necessidade de a gente entrar somente pelo viés apenas político. Isso pode ser feito pela ação, como os projetos de protagonismo, que falam por si”, disse, dando como exemplo a atuação dos grêmios estudantis, que “têm de ter capacidade de refletir por si só sobre as questões que afetam a comunidade”.

Simone alertou que nas periferias, muitas comunidades neopentecostais têm se alinhado a ideais cívico-militares e muitos país de adolescentes e jovens pensam que isso é positivo para manterem seus filhos afastados da criminalidade. “Há algumas pessoas que acreditam que essa é a maneira, essa docilidade do corpo da criança negra periférica, é a maneira de fazer com que ela se afaste da criminalidade. Eu acho que a gente vai provocar com isso, a gente, digo a nossa sociedade, uma guerra fratricida nas periferias: de um lado, você vai ter policiais periféricos, negros, saídos dessa vida policialesca, e do outro, tudo que não se encaixar, inclusive quem é dos movimentos sociais, apanhando desse policial que nasceu ali, e viveu junto na mesma comunidade”.

Cláudia enfatizou que a privatização escolar é um problema para a educação democrática, pois com isso há o esfacelamento dos projetos pedagógicos, com o agravante de que há a percepção de que a escola cívico-militar é melhor do que a atualmente. “Esse processo valoriza avaliações externas absurdas, com aberrações de metodologia de avaliação, para dizer que a escola pública é ruim. E ao se dizer isso o pai do aluno acredita, mas ele não pode pagar uma pseudoescola particular. Assim, quando vem um modelo de privatização, ele assume isso como ‘agora a escola vai ser boa’, agora os militares estarão aqui, não vai entrar mais droga, não vai entrar mais bandidagem. Entretanto, bem sabemos que essa privatização tem objetivos financeiros, há empresas vão lucrar com a verba pública que irão receber e de educação não querem saber de nada, só de lucro”.

Ela lembrou, ainda, que há a lógica do poder público de precarizar a educação para, assim, dizer que está ruim e privatizá-la. “E quando há essa privatização, a sensação que as pessoas têm é de melhora, só que não é, porque piora a situação. E a militarização, ela além de tudo, traz consigo esse viés de uma barbárie total. Esse estudante está fora do jogo. E aí quem vai cooptar? O PCC, o tráfico, tudo mais”.

Simone externou preocupação de que hoje muitos professores já são formados dentro desta lógica de alienação.

Simone Preciozo

LÓGICA MILITARIZADA

Cláudia disse perceber que já tem havido a reprodução da lógica militarizada no ambiente escolar, bem como da lógica neopentecostal dentro das salas de aula, seja por professores concursados, seja por professores contratados.

“É uma política pública desarticuladora. Os concursos públicos estão cada vez mais rarefeitos, mais afastados da realidade. Você vai contratando pessoas sem, muitas vezes, o mínimo necessário. E elas, com medo de serem mandadas embora, porque têm um contrato de um ano, se submetem a qualquer tipo de situação. E aí não há coordenador pedagógico, não há projeto político-pedagógico, PPP da escola, que consiga fazer frente. Então nós temos que lutar em todas as esferas, para que essas políticas sejam barradas na origem, lá na Câmara Municipal”, comentou Cláudia, enfatizando que a privatização das escolas é um braço da militarização que alguns governos têm feito.

Cláudia comentou ainda que em algumas comunidades no entorno da escola onde ela trabalha a falta de espaços de lazer é muito grande e a juventude sofre com estigmas de criminosos: “Obviamente, eu não faço nenhuma apologia a grupos que ostentam drogas e tudo mais, mas o funk não pode ser criminalizado apenas por ser um ritmo periférico. Há necessidade de se estudar a periferia e as suas escolhas culturais com muito carinho, com muito apreço, porque senão se coloca tudo no mesmo balaio. Essa criminalização da pobreza, da periferia, inclusive nos seus espaços culturais, é proposital. Porque, assim, haverá a entrada da polícia, arrastando tudo, prendendo todo mundo, como se fossem todos bandidos. Então, se torna um espaço em que o contraditório, ele não existe. Já está dado, já está ratificado: ‘Ali só tem bandido, é favela’”.

A professora disse que, para as elites, quanto mais a periferia estiver dividida é melhor. “E o nosso caminho, os projetos políticos pedagógicos das escolas, precisam ser no caminho contrário. Precisam construir pontes e não muros, que é o que a militarização propõe. Ela estabelece um espaço de conflito interno, para que não haja união e a gente não faça a revolução”.

Foto: Apeoesp

ESPERANÇAR

“Temos de acreditar na educação de verdade, nesse nosso papel freiriano, vamos aqui defender com unhas e dentes isso que nossa geração tem de mais maravilhoso que foi conviver com pessoas como Paulo Freire. O que ele escreveu está com a gente ainda, porque foi feito há um tempo muito recente. Se não for o educador, se não for o professor, acima de tudo, buscar esse combate à barbárie, a gente vai entregar e acabou”, disse Simone.

A apresentadora assegurou: “A gente vai resistir. A rádio Cantareira está aqui, ao lado da educação de verdade, lutando contra tudo isso que vai oprimindo, que vai descaracterizando e gerando essa polarização fratricida na periferia. A educação é a grande resistência, é o grande espaço que as pessoas têm para resistir a tudo isso”.

Por fim, Cláudia Regina deixou uma mensagem sobre esperançar. “Não é fácil esperançar quando tudo coaduna para que as coisas não deem certo: desvalorização profissional, péssimas condições de trabalho, políticas públicas inadequadas, mas o professor de verdade professa. O professor de verdade é esse que gosta, que almeja a revolução das ideias, a que a sociedade seja igualitária, que a sociedade não exista para poucos, que ela seja para todos. Ele vai resistir, vai lutar, vai estabelecer um vínculo afetivo com os seus estudantes, com aqueles pelo qual a escola existe. Ela só existe por eles. Mas nós, educadores, temos uma missão, um compromisso que não é um compromisso romântico, é um compromisso político, um compromisso ético, estético, que valoriza o sujeito na sua integralidade. E quando se valoriza a integralidade, se afasta a militarização, se afasta a possibilidade dessas avaliações externas exacerbadas, que só servem para julgar a periferia como impotente, incapaz. Não perdi ainda a esperança, porque aprendi muito com Freire e com outros autores e não só com acadêmicos, mas com as pessoas do cotidiano da escola, que esperançar é diferente de esperança. Esperançar é você estar construindo no dia a dia, passo a passo, momento a momento, a nossa tão sonhada revolução social”.

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