Caminhada na Brasilândia reúne pesquisadores e coletivos de cultura e comunicação
Cefavela/UFABC e Centro de Memória Nascentes da Brasa promovem trabalho de campo em lugares históricos do território
Na geografia dos morros e das várzeas, entre ruas e avenidas, becos e vielas, igrejas e terreiros, o “Trabalho de Campo na Brasa”, realizado no dia 31 de janeiro de 2026, abordou aspectos da formação do território da Brasilândia, passando por lugares históricos, contemplando os processos de loteamento, ocupação e autoconstrução das moradias, com destaque para a mobilização popular na luta por infraestrutura urbana e serviços públicos, entre outros assuntos de interesse coletivo.
Por meio de visita guiada com moradores e ativistas, junto a pesquisadores do Centro de Estudos da Favela (CEFAVELA), sediado na Universidade Federal do ABC (UFABC), a atividade fez parte da iniciativa do Centro de Memória Nascentes da Brasa, uma ferramenta para o acesso ao direito e preservação da memória e identidade da Vila Brasilândia. Estiveram presentes organizadores e participantes dos coletivos Sarau da Brasa, Reduto do Rap, Viela 4, Samba do Congo, Muvuca, Deversos, Cria Coragem, Quilombrasa, Flutua e Intervozes, além da Rádio Cantareira.
Do “pau de arara” à linha 6-Laranja do metrô, da peregrinação em busca de água aos longos trajetos a caminho do trabalho, o cotidiano “na brasa” tem sido marcado por habitações precárias, à beira de córregos, becos e escarpas de morros, mas também por manifestações culturais e organizações políticas que refazem este território-abrigo. Como lembra Sonia Bischain, fotógrafa e escritora que conduziu o roteiro, “nada foi de graça aqui na Brasilândia, tudo a gente teve que correr atrás”.
Atualmente, vivem na Brasilândia quase 240 mil habitantes, dos quais 50,6% se declaram pretos ou pardos e 24,7% residem em favelas, sendo um dos distritos mais populosos (7º), com maior presença negra (13º) e quantidade de favelas (2º) da cidade (Rede Nossa São Paulo, 2024). Conforme o Mapa da Desigualdade 2024, que congrega uma série de dados em saúde, educação, moradia, transporte, segurança e renda, verifica-se que o distrito apresenta o pior índice de qualidade de vida da capital paulista.
TRILHA DA SAÚDE: DA ‘PANCADARIA DO Ó’ AO HOSPITAL DA BRASILÂNDIA
O ponto de partida do trajeto foi o Largo do Clipper, no Distrito da Freguesia do Ó. Neste local, em 21 de junho de 1980, diversos manifestantes foram surpreendidos por um grupo de homens que os atacaram com soco-inglês, paus e bombas de gás lacrimogêneo, quando marchavam em direção à administração regional do município, reivindicando água, asfalto, creches, postos de saúde e hospitais para o bairro. Segundo o relato de Sonia, não se tratou de um confronto, como apareceu na mídia, mas de uma violenta repressão: “a gente passou a noite produzindo faixas e apanhamos com os paus das nossas próprias faixas”.
O episódio ficou conhecido como “Pancadaria do Ó” e se tornou um marco da luta dos moradores da Brasilândia por saúde pública. Após a exigência de apuração dos fatos, a Câmara Municipal instaurou uma Comissão Especial de Inquérito. Por conta da repercussão, foram conquistados creche, posto de saúde, duas linhas de ônibus, asfalto e iluminação de algumas ruas, além de três hospitais, como o Pronto-Socorro (atual UPA) 21 de Junho, cujo nome homenageia o dia da pancadaria.

Cerca de 40 anos depois da pancadaria, o distrito possui mais de 30 equipamentos de saúde, incluindo o Hospital Municipal da Brasilândia. Após atrasos, a unidade foi inaugurada durante a pandemia, quando a Brasilândia se tornou o lugar com mais mortes por Covid em São Paulo. A sua instauração é fruto de muita mobilização dos moradores, que pressionaram a prefeitura, sobretudo por meio da Rede Brasilândia Solidária, pelo funcionamento efetivo do equipamento, ao invés da construção às pressas e sem licitação de hospitais de campanha na região, além da abertura de novos leitos e da ampliação do atendimento.
Ainda sobre a saúde pública, foi apresentada por Sonia a história por trás da construção de um piscinão a céu aberto no Jardim Tiro ao Pombo. O projeto foi elaborado e iniciado durante a gestão de Paulo Maluf (1993-1996), destinado a conter as recorrentes enchentes em uma área de fundo de vale, onde correm o Rio das Pedras e o córrego do Cabuçu de Baixo, canalizados para dar lugar à Avenida João Paulo I. As obras seguiram o modelo do Plano de Avenidas, projeto de sistema viário proposto por Prestes Maia e Ulhôa Cintra nas décadas de 1920 e 1930.

A luta pela água, que faltava nos morros e enchia as áreas de várzea, movimentou a população nas décadas de 1950 e 1960. Como relembra Maria de Fátima, escritora e articuladora, “você comprava o loteamento, montava o barraco e depois iria lutar pelo acesso à água”. Mesmo próximo da Serra da Cantareira, onde estão as bacias hidrográficas que abastecem a cidade de São Paulo, o povo, que antigamente pegava água nas bicas e construía seus poços artesianos, conviveu e permanece sofrendo com enchentes, deslizamentos de terra, falta de água encanada, córregos poluídos, infestação de ratos e insetos, dengue, zika, chikungunya e outras doenças decorrentes do saneamento básico inadequado.
TRILHA DA CULTURA: DO SAMBA AO RAP, DO TERREIRO AO SARAU
O nome do distrito homenageia Brasílio Simões, antigo sitiante que ficou conhecido pela produção da Caninha do Ó, cachaça fabricada desde 1905, além de liderar a construção da Paróquia Santo Antônio, em substituição a uma antiga capela, sendo um dos poucos patrimônios preservados na paisagem. Durante o trabalho de campo, os participantes comentaram sobre o papel da Igreja Católica, a partir das correntes ligadas à teologia da libertação e às comunidades eclesiais de base, na luta por moradia, saúde, educação e outros direitos sociais. De acordo com Juçara Terezinha, comunicadora da Rádio Cantareira, “naquela época, era uma opção da igreja pelos pobres […] um momento da igreja muito ‘pé no chão’, mergulhado com os movimentos sociais”.
Retomando o histórico de formação do bairro, no final da década de 1930, Brasílio vende suas terras para a família Bonilha, donos de uma grande olaria e responsáveis por iniciar o processo de loteamento por meio da Companhia Brasilândia de Terrenos e Construções Ltda., fundada em 1946. Neste mesmo ano, “voltou a funcionar a pedreira Vega-Sopave, instalada na região em 1939 (ficando um tempo desativada), oferecendo moradia aos seus operários e às suas famílias” (Bischain, 2021 p. 31). A pedreira, que servia de relógio para a população, dada a exatidão das explosões diárias, funcionou até a década de 1980 e atualmente serve de estacionamento para os trens da futura linha do metrô.

Loteada em 1947, a imensa área que se originou a partir do desmembramento de antigas fazendas de cana-de-açúcar, sempre foi um lugar de resistência, abrigando populações negras e indígenas escravizadas que fugiam em direção à Serra da Cantareira, formando quilombos no alto dos morros (Bischain, 2021). O local foi destino ainda de parte das pessoas removidas dos cortiços do centro da cidade, além de migrantes vindos de outras regiões do país e do mundo (Bischain, 2021). Essa concentração de gente proveniente de vários lugares, com múltiplas expressões artísticas e religiosas, deu origem a uma grande diversidade cultural.
Em meio a essa mistura de crenças, localiza-se na Vila Cruz das Almas o Terreiro de Zé Mendes, onde ocorre a Festa do Boi Itá Ode, na sede do Palácio Negro, realizada pela Federação de Candomblé do Estado de São Paulo há 37 anos, considerada uma das mais antigas e tradicionais festas da cultura afro-brasileira. É neste cenário que surge, em 1971, a Sociedade Rosas de Ouro, tradicional escola de samba, a Black Mad, uma das inúmeras festas da cena de bailes black dos anos 1970, e o Terreiro Santa Bárbara, fundado por Mãe Manaundê e tombado em 2019 como patrimônio histórico do estado de São Paulo, configurando-se como uma referência de rito Angola e tradição bantu, sendo o primeiro terreiro de Candomblé a ser registrado em cartório no Brasil, com o nome de Tenda Espírita Oiá Dilê, em 1962 (Condephaat, 2021).
Nas lembranças da infância dos mais velhos, há o samba cantado nas esquinas, os antigos cinemas, as partidas de futebol de várzea, a escuta atenta dos discos de vinil, as festas nos clubes e quintais, além do contato próximo da natureza, em uma época na qual ainda existiam lagoas, riozinhos, árvores, bichos e a água era limpa. Mas nem tudo eram flores. Muita luta aconteceu, liderada sobretudo por mulheres, como o importante clube de mães, as quais se organizaram para criar redes de apoio e cuidado das crianças, normalmente nos salões das igrejas.
Em época de ditadura militar, saia às ruas da Brasilândia a conhecida “Salamandra” — uma estrutura articulada, inspirada no anfíbio de corpo alongado, patas curtas e uma cauda relativamente longa — a fim de comunicar aos moradores sobre festas e manifestações políticas, sem causar alarde. Certa vez, lembra Bischain, os manifestantes produziram “pacotes econômicos”, fazendo uso de caixas e folhetos contendo pautas importantes para o bairro.
Assim como fazia a juventude militante nas décadas de 1970 e 1980, saiu nas ruas da Brasilândia no dia 29 de novembro de 2025 a 11ª Marcha da Periferia na Brasilândia. O ponto de encontro foi a praça do Circo Escola, na Vila Penteado, tradicional reduto dos encontros e comícios políticos da juventude do Partido dos Trabalhadores. Com o lema “nossas vidas importam: queremos saúde, justiça e educação e direito ao futuro”, a marcha, que teve como ponto de chegada a Casa Luiza Mahin, vem se inspirando na luta dos estudantes secundaristas, que ocuparam a Escola Estadual Martin Egidio Damy no ano de 2015, em uma ação direta de luta e denúncia do fechamento de alguns ciclos do ensino pela Secretaria de Educação do Governo do Estado de São Paulo.
Dando vazão aos conhecimentos adquiridos na labuta dos mais velhos, responsáveis pela construção material e afetiva da Brasilândia e seu entorno, destaca-se ainda o trabalho dos coletivos Viela 4, Quilombaque, Reduto do RAP, Samba do Congo, Sarau da Brasa, Batalha da Brasilândia, Slam da Norte, Salve Kebrada, Fofão Rock’n Bar, Sarau Elo da Corrente, Sarau Segunda Negra, Subterrâneo, Samba do Balaio do Canjico, entre inúmeros outros, os quais, superando adversidades, organizam-se para planejar e gerir seus espaços (e destinos), às vezes com o Estado, às vezes à revelia do Estado e muitas vezes contra o Estado, resistindo.

