A Engrenagem que Silencia o Tambor: A Industrialização do Carnaval Paulistano

O pesquisador Famelli Júnior analisa como a “robotização” dos desfiles no Anhembi e a dependência de verbas comerciais estão sufocando a função social e a espontaneidade das escolas de samba de São Paulo.
Por Elder Oliveira


O Carnaval de São Paulo vive hoje o seu auge financeiro, mas, paradoxalmente, enfrenta uma de suas maiores crises de identidade. O que antes era uma manifestação orgânica, nascida nos quintais e nas rodas de conversa das periferias, transformou-se em uma operação industrial de alta complexidade. Sob as luzes do Sambódromo do Anhembi, o samba agora precisa lidar com cronômetros, regulamentos de ferro e a pressão das métricas de audiência, uma realidade que, para muitos baluartes, está matando a espontaneidade da festa.
Famelli Júnior, pesquisador e fundador da entidade SP em Retalhos, é uma das vozes mais críticas a esse processo de “espetacularização”. Segundo ele, a escola de samba moderna tornou-se refém do próprio luxo, abandonando o seu papel primordial como centro de convivência social e resistência cultural. O pesquisador argumenta que o foco excessivo no cumprimento de normas técnicas para evitar a perda de décimos criou um desfile robotizado, onde a emoção do componente é secundária.
Em sua visão, o atual modelo de competição engessa a arte. Ele destaca que “o regulamento não te impede de fazer um desfile de escola de samba, só que ele te obriga a fazer um desfile de não escola de samba. Ele acaba te obrigando a fazer um desfile frio, um desfile congelado.” Essa frieza é o sintoma de uma festa que deixou de ser feita “pelo povo” para ser consumida “pelo público”.
A dependência econômica é o pilar que sustenta essa estrutura. Com orçamentos que ultrapassam a casa dos milhões, as agremiações tornaram-se dependentes de verbas públicas e, principalmente, de contratos de imagem com grandes redes de televisão. Famelli Júnior alerta que essa fragilidade coloca em risco a existência das escolas caso os interesses comerciais mudem de direção.
Ele questiona a sustentabilidade dessa engrenagem ao afirmar categoricamente que “tira a verba da TV, tira a verba do patrocinador da TV, tira a verba da Prefeitura (…) virou uma coisa única e exclusivamente comercial”. Enquanto o espetáculo avança, o debate que fica é sobre o futuro: será que o Carnaval de São Paulo conseguirá recuperar sua alma comunitária ou continuará sendo apenas um cenário de luxo para a transmissão televisiva?

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