‘Atreva-se’: um movimento para pensar e resistir ao patriarcado
No país em que a cada a seis minutos uma mulher é estuprada e no qual as desigualdades de gênero são evidentes nas relações familiares e sociais, um grupo de ativistas tem se dedicado a fazer com que as pessoas, especialmente os mais jovens, pensem sobre as ramificações e incidências do patriarcado no cotidiano.
“E o que é o patriarcado no cotidiano? É um poder que dá ao corpo do homem a regulação de todas as coisas. E há um monte de camada aí, porque a gente entende que precisa falar de gênero; e para falar de gênero, precisa falar de raça; e para falar de gênero e raça, precisa falar de classe. Não existe a possibilidade de falar uma coisa dissociada da outra, pois a ideologia vigente é uma só, é um ‘guarda-chuva’ patriarcal, capitalista, colonizador”, afirmou Nicole Aun, uma das idealizadoras do movimento ‘Atreva-se’, em entrevista na edição de 7 de novembro do programa ‘Manas e Manhãs’, apresentado por Simone Preciozo na rádio comunitária Cantareira FM.
O SURGIMENTO DO ATREVA-SE
O ‘Atreva-se’ começou em 2015 com o desafio de pensar formas de falar, com uma linguagem amplamente compreensível, a respeito do patriarcado e do machismo no cotidiano. E um fato em específico foi o grande motivador para o início das ações.
“Em 2015 foi recriada em São Paulo uma ‘Escola de Princesas’, para as meninas a partir dos 9 anos aprenderem a se comportar como mulheres. Na época, minha filha era recém-nascida e foi muito desesperador para mim imaginar que se estava reatualizando as ferramentas impostas à mulher para consiga performar. Um grupo, então, começou a pensar maneiras para responder àquilo, ainda que subjetivamente. E quando eu busquei saber mais sobre essa tal escola, tive contato com uma moça que matriculou a filha, com a justificativa de que era para garantir que sua filha vivesse menos violências do que ela viveu, para que aprendesse a performar uma coisa que ela nunca aprendeu, para, assim, ter uma vida mais segura do que a dela. E eu fiquei arrasada, pois pensei, ‘cara, as mulheres estão tentando se salvar’. Foi quando eu falei, ‘preciso fazer algo, isso não pode estar na ordem do natural, tem aí um buraco muito fundo que a gente não está conseguindo pegar com a mão’”, detalhou Nicole.
No princípio, o grupo começou a refletir por conversas de WhatsApp sobre o que fazer. Depois, passou a realizar rodas de conversas e leituras de livros de mulheres protagonistas em um parque, mas percebeu que precisava ir além, estruturar um projeto permanente de conscientização e luta contra o patriarcado, e chegar às novas gerações.

‘NOMEAR PARA COMBATER’
Com o decorrer do tempo, o ‘Atreva-se’ visualizou como melhor forma de dialogar com os adolescentes e jovens a criação de jogos nos quais eles participem ativamente para identificar as incidências do patriarcado e pensar possíveis soluções, e passaram a buscar por escolas públicas para aplicar a técnica.
“O primeiro jogo que criamos se chama ‘Nomear para Combater’, com personagens, situações e ambientes. Os participantes precisam criar uma história que revele o machismo, e depois uma história de combate ao machismo. Hoje conseguimos bastante capilaridade com a iniciativa. As escolas começaram a nos chamar para falar de empreendedorismo feminino, por exemplo, e a gente argumentava ‘olha, para o empreendedorismo feminino acontecer, a gente precisa pensar sobre o patriarcado’. Dá para falar de empreendedorismo feminino sem falar de patriarcado? Não dá! Dá para falar de gravidez na adolescência sem falar de patriarcado? Não dá! Dá para falar de autocuidado sem falar de patriarcado? Não dá!”.
Ainda segundo Nicole, o jogo foi sendo aperfeiçoado conforme ia sendo aplicado nas escolas com os adolescentes e jovens, na medida em que o tema ia saindo do achismo para as situações visualizadas por eles no cotidiano.
O jogo ‘Nomear para Combater’ consiste em dois momentos: o primeiro é de relatar uma história machista e o segundo é uma história de combate a tal prática.
“As histórias para nomear como machismo são muitas, já as histórias para combater são fantasiosas, porque as pessoas não têm repertório a respeito. Dou um exemplo:
a pessoa pega cinco cartas – ‘rua escura’, ‘ponto de ônibus’, ‘fiu-fiu’, ‘líder religioso e eu’ e ‘grupo de WhatsApp’. Rapidamente, elas formulam uma história sobre machismo, muito perto da realidade, mas quando vem a parte da história de combate o machismo, aparecem coisas como… ‘Ah, quando eu estava para ser violentada, chegou o policial, prendeu ele e eu fiquei bem’; ‘Ah, eu fui à delegacia, fiz uma denúncia, ele foi preso e tudo ficou tranquilo’. As pessoas sempre pensam em um final feliz, fantasioso”, comentou Nicole que já foi diretora de teatro, roteirista, educadora social e escritora.
A integrante do ‘Atreva-se’ destacou que o jogo acaba por fazer as pessoas pensarem como funcionam as estruturas de poder e de como o machismo é parte do cotidiano, mas as formas para combatê-lo ainda não. “Fomos entendendo que o machismo é uma ferramenta de controle de um ‘troço’ maior que ele, que é o patriarcado. E buscamos fazer com que os adolescentes da escola pública compreendam o que é o patriarcado, vendo como ele se materializa no cotidiano”.
Nicole explicou que essa abertura de portas para dialogar com os adolescentes e jovens nas escolas é iniciada com um convite para tirar as coisas, as verdades, do lugar, para atestar se aquilo que acreditam até então é, de fato, verdadeiro: “A gente diz, ‘Vamos ter uma hora e meia para fazer algo legal. É um troço para você saber se aquilo que você sabe, você sabe mesmo ou se inventaram pra você. E aí, no final, você vai descobrir o que você quer. Eu preciso de você, então, vem comigo. E convido a fazer um troço revolucionário que é pensar’”.

OUTROS JOGOS
Além do ‘Nomear para combater’, o ‘Atreva-se’ desenvolveu outros jogos/pretextos para fomentar a reflexão sobre patriarcado entre com adolescentes e jovens.
Um dos jogos busca entender a relação entre afeto e violência, pois muitas vezes se chama de amor aquilo que é violência. No jogo “Histórias para quem dormir” – que resultou no livro “Histórias para quem dormir? Expondo os contos de fadas para despertar” – o participante descobre quem é o personagem fazendo perguntas a respeito dele.
“A gente vai fazendo uma trilha na cabeça desses adolescentes, pois aquela história já está sedimentada como um relato de amor, mas quando a gente começa a perguntar a respeito da história, vai abrindo uma fresta: ‘Mas é mesmo amor? Sequestro pode ser chamado de amor?’ Como é que vamos chamar de amor o que é violência?’ Não dá. ‘Se você ouvissse esta história infantil de novo, com essa perspectiva, contaria para a polícia ou para uma criança?’ Essas histórias são contadas para crianças para criar um imaginário que diga pra gente que é possível passar por todas as violências do mundo pois no final, a mulher vai ser compensada com um amor, que ela não sabe qual é, e que, na verdade, não manifestação alguma de amor”.
O outro jogo se chama “Qual o seu signo?”, que fala sobre meritocracia. “Dentro dessa ideologia vigente, tem um corpo que representa esse poder, e esse corpo tem sete signos de poder: homem, branco, adulto, cisgênero, heterossexual, se não rico influente, e considerado capaz. Então, quanto mais desses sete signos de poder a pessoa tiver no próprio corpo, mais trânsito social e mais atrocidades poderá cometer; e quanto menos signos tiver, menos trânsito social e mais atrocidades poderá sofrer”, detalhou Nicole.
E há ainda o jogo “Tem nome na lista”, que é sobre qual corpo entra em qual instituição, “qual corpo é visto em qual instituição como natural”.

LUTA E REFLEXÃO PERMANENTE
Nicole enfatizou que o movimento ‘Atreva-se’ tem entre seus propósitos fazer com que os adolescentes e jovens entendam o porquê foram ensinados a se comportar de determinada maneira patriarcal, do porquê a sociedade é organizada a partir de uma função de gênero e qual é o poder que ganha com isso.
Ela destacou ainda que o ‘Atreva-se’ busca fazer os meninos refletirem se eles querem ser capangas desse poder patriarcal, pois eles não o detém individualmente. “‘Menino, na hora que você se der mal, o poder não vai se preocupar um minuto sequer com você, não estará nem aí com você. Então, qual pacto de mundo você quer fazer?’ É neste lugar que a gente chega com os garotos, neste lugar que é o ‘risco do pensamento’”.
“O mundo que a gente vive hoje é fruto de um pensamento colonizador, patriarcal e capitalista. E como é que essa ideologia vigente se estrutura como poder? A partir de três ferramentas de controle: estupro, sequestro e genocídio. E todos os espaços de poder vão usar essas três ferramentas. O poder se atualiza nesta lógica, com variações dessas ferramentas, que vão sendo renomeadas e rearticuladas para manter o poder da branquitude colonizadora, patriarcal e capitalista”, detalhou Nicole.
Simone Preciozo comentou que as mulheres não são educadas/preparadas para reconhecer as micro e macro violências que podem levar a situações como estupro, e quando são alvo de tais violências não têm para onde pedir ajuda ou encontram dificuldades para acessar direitos, como o do aborto para os casos em que já é permitido, como diante de um estupro.
Nicole ponderou que o fato de uma mulher reconhecer o que é violência e o que é amor não irá deixá-la imune ao risco de ser estuprada: “O que livra a mulher de um estupro é não existir estuprador, ou seja, é não ter o estuprador como uma ferramenta de controle de poder do patriarcado. Estupro não é uma discussão sobre sexo, sobre afeto ou amor, é algo sobre uma ferramenta de controle dada aos homens pelo patriarcado. Todos os corpos passam a saber que aquela vítima viveu algo que está dado a qualquer uma de nós, é uma ferramenta de controle do patriarcado”, insistiu.
Ao longo da entrevista, Nicole Aun falou ainda sobre os dois livros lançados pelo movimento: “Nomear para Combater, uma tentativa de organizar a raiva para virar pensamento” e “Histórias para Quem Dormir? Expondo os contos de fadas para despertar”, ambos pela editora Jandaíra. Ela também disse que o grupo faz oficinas on-line para os que desejam aplicar os jogos, os quais são disponibilizados em PDF.
Por fim, Simone Preciozo elogiou o movimento ‘Atreva-se’ pela iniciativa de elaborar os jogos que permitem uma dinâmica própria a cada vez que são jogados em grupo, uma vez que as realidades são diferentes em cada lugar: “A ideia que vocês tiveram, o trabalho que vocês fazem, é uma das coisas que mudam o mundo” disse, desejando que os livros e os jogos sejam amplamente difundidos, pois “sem combater o patriarcado não se chegará a uma sociedade igualitária”, assegurou.
Conheça o ‘Atreva-se’ por meio do Instagram: @movimento_atrevase
ASSISTA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA DE 7 DE NOVEMBRO
