Por trás dos personagens, a história de superação de Felipe Campos

Imagine que uma criança ao ganhar brinquedos de sua mãe os doe para outras crianças pela janela de sua casa. E isso se torna tão recorrente a ponto de a mãe dar a essa criança, aos 10 anos de idade, uma roupa de Papai-Noel.

O tempo passa, a criança se torna adulta. Seu nome: Felipe Campos, que ainda hoje se sente plenamente realizado ao visitar escolas, instituições e projetos sociais vestido de Papai-Noel. Em 2018, Felipe conheceu o “Projeto Luz e Vida #Gratidão”, tendo contato com Janete Santana e passou a interpretar dois novos personagens: o Coelho de Páscoa e o Mickey Mouse.

“Eu amo fazer estes personagens, eu amo ver a alegria das crianças. Quando eu entro nos personagens, eu consigo me soltar mais”, disse Felipe Campos em entrevista na edição de 5 de novembro do programa ‘Comunidade em Foco’, apresentado por Juçara Terezinha na rádio comunitária Cantareira FM.

O DIAGNÓSTICO DO AUTISMO

Assim que conheceu Felipe, Janete lhe fez uma proposta: “Nós combinamos que ele faria o Papai-Noel e eu a Mamãe Noel. E nós começamos a ir em várias instituições. E o trabalho foi crescendo. Aí, eu percebi que ele tinha alguma dificuldade e fomos investigar o que seria até chegar ao diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista, o autismo. Isso foi em 2024. Quando a gente vai fazer alguma apresentação, eu estou sempre do lado dele, sempre dando um suporte, mesmo que ele fale que não precisa. A história do Felipe serve para as pessoas verem que um autista é capaz de fazer muitas coisas”.

Embora Felipe só tenha sido diagnosticado com autismo aos 32 anos de idade, desde criança apresentava sinais típicos dessa condição, como o hiperfoco em algo, no seu caso específico em personagens infantis.

Janete destacou que o “Projeto Luz e Vida #Gratidão” já tinha lidado com crianças autistas e mães atípicas, mas que foi a primeira vez que pôde contar com um adulto com hiperfoco em tais personagens. Felipe, que trabalha como entregador de fast-food, faz apresentações gratuitas na maioria das vezes.

“A partir do momento que você descobre suas dificuldades, você aprende a lidar com elas. E no caso do Felipe, foi uma coisa extraordinária que aconteceu. Descobrir o diagnóstico foi algo que virou uma chave na vida dele. Trouxe muita alegria para ele e essa alegria ele expande por onde ele vai com estes personagens”, prosseguiu Janete, adiantando que a dupla planeja fazer trabalhos direcionados para crianças autistas.

ATENÇÃO DA FAMÍLIA E AUTONOMIA

Durante a entrevista, Felipe destacou todo o apoio que recebeu de sua mãe para que obtivesse o diagnóstico. Há dois anos, ele decidiu deixar a cidade de Mogi das Cruzes (SP) para morar sozinho na capital paulista, em busca de maior autonomia de vida.

“Eu moro sozinho, faço a minha comida, pago minhas contas, vou ao mercado”, relatou Felipe.

Janete ressaltou ser fundamental que se promova a autonomia da pessoa com autismo: “A mãe, às vezes, com toda a vontade de proteção, acaba podando a criança, a deixa totalmente depende dela e nunca preparada para o mundo. É preciso, porém, que as mães ajudem sempre que seus filhos sejam mais independentes, para que fiquem preparados para enfrentar a vida, para enfrentar o mundo, porque mãe não é eterna, nenhum de nós somos”.

Juçara Terezinha destacou o papel essencial das famílias para a descoberta do diagnóstico de autismo, o quanto antes seja possível, e para o desenvolvimento da pessoa que tenha essa condição: “Ter o apoio da família é fundamental. Ainda hoje, infelizmente, há muitas crianças cujas família não têm esse cuidado de buscar o diagnóstico. E às vezes, até por falta de conhecimento, o pai ou a mãe até acaba agredindo a criança, o adolescente, o jovem. E isso não ocorre por maldade, mas por falta de conhecimento mesmo, de como lidar com a pessoa com espectro autista”.

ACOMPANHAMENTO CLÍNICO

Também participante da entrevista, a neuropsicóloga Márcia Mariano, presidente da Associação Beneficente Albaninho, no Jardim Carumbé, lembrou que atualmente tem sido crescente o número de adultos que buscam saber se são autistas ao perceberem dificuldades para convivência no dia a dia, entre as quais a de socialização.

“Os adultos estão tentando buscar conhecimento, saber quem são, porque acontecem muitas situações na vida deles. E essa é uma questão bastante séria, porque nós temos muitas pessoas que estão hoje se percebendo autistas e  que viveram a vida inteira lidando com momentos de dificuldade, sofrimento, até mesmo com preconceitos”, relatou a neuropsicóloga. 

“Hoje o Felipe está super bem e em breve eu finalizarei o relatório sobre a hipótese diagnóstica dele para já encaminhá-lo para o neurologista”, comentou Márcia, enfatizando que todos que suspeitem de alguma condição neuroatípica devem procurar fazer uma avaliação neurológica completa para buscar a ajuda devida.

“O Felipe tem hiperfoco em personagens, tanto que ele é uma pessoa quando está caracterizado e outra completamente diferente quando está sem as vestes”, disse Márcia, explicando que cada autista tem um hiperfoco e o processo de acompanhamento clínico considera este aspecto. “A gente tem que pegar esse hiperfoco e trabalhar a partir dele. Não adianta se alguém tem hiperfoco de matemática, eu forçar a pessoa a entender e gostar do português”, exemplificou.

Juçara disse que muitas pessoas que conviveram a vida toda com comportamentos típicos de autismo hoje tem buscado avaliação sobre um possível diagnóstico: “Nunca é tarde para ir atrás e tentar viver com a melhor qualidade de vida possível”.

O PROJETO LUZ E VIDA

Ao longo do programa, Janete falou sobre o Projeto Luz e Vida, que surgiu nos anos 2000 dentro de uma entidade espiritual que ela dirigia e que buscava fazer ações solidárias às famílias mais necessitadas, por meio da entrega de alimentos, roupas, calçados e brinquedos.

Em 2018, a sede da entidade foi fechada, mas ela decidiu dar sequência aos trabalhos de caridade: “Isso está dentro de mim, pois quando eu era criança, eu via minha mãe com uma sacolinha e nela sempre colocava uma banana, uma laranja para doar. Ela também dava pão, dava roupa. Eu trouxe isso para a minha vida. Em 2018, comecei a fazer a iniciativa aqui no meu bairro, e na pandemia, na Páscoa, eu tive a ideia de fazer uma cesta em vez de dar ovos de Páscoa”.

A partir disso, a iniciativa cresceu: das 54 famílias assistidas inicialmente, este número saltou para 230 famílias, graças as doações materiais e financeiras para as ações caritativas.

“Nós sempre distribuímos ovos de Páscoa e chocolate. Ao conhecer o Felipe, eu propus que ele fosse com a gente dentro de um carro para fazer esta distribuição passando pelos bairros com ele vestido de coelho. As crianças, quando veem o coelho, correm com uma alegria muito grande. Na verdade, não só as crianças, os adultos também. Eles também correm para tirar foto com ele. É um trabalho incrível, fruto dessa paixão que o Felipe tem”, contou Janete.

A fundadora do Projeto Luz e Vida explicou ainda que atualmente também é feito um trabalho de suporte às mães atípicas: “Nós precisamos cuidar de quem cuida, porque as mães de autistas de grau 2 de suporte ou de grau maior têm muita dificuldade para muita coisa. Por isso, a gente busca ajudar para que consigam vaga em escolas para os filhos, ajudamos em trabalhos sociais e a obter psicólogos”.

Juçara enalteceu o projeto por permitir que a questão de conviver com uma pessoa com autismo na família ocorra de uma forma leve, criativa, valorizando sua autonomia.

Janete, por sua vez, motivou que as associações de bairro e organizações sociais tenham uma maior atenção com as crianças e os adultos com os sinais típicos do espectro autista para ajudá-los em seu desenvolvimento.

Por fim, Juçara enfatizou que é fundamental que as pessoas neurodivergentes sejam empoderadas, “para que possam ter uma qualidade de vida melhor, possam estar colocadas na sociedade, como está o Felipe. Ele é a prova de que é possível ter uma qualidade de vida diferente, ser autônomo, tocar nossa vida, ser responsável e tudo mais. E é importante que as famílias se preparem, busquem ajuda, não tenham vergonha de procurar psicóloga, terapeuta para saber como lidar com essa situação”.

Conheça mais sobre o Projeto Luz e Vida, por meio do telefone (11) 98489-5959, pelo Facebook Projeto Luz e Vida #Gratidão e pelo Instagram @janetesantana31.

O Felipe Campos também está no Instagram: @felipe_animacoes.

VEJA A ÍNTEGRA DO ‘COMUNIDADE EM FOCO’ DE 5 DE NOVEMBRO