Vítima de racismo institucional, professora Érica Bispo luta por justiça
Parece um enredo de filme de drama, mas aconteceu de verdade e na maior universidade da América Latina: em junho de 2024, a Universidade de São Paulo (USP) realizou concurso para uma vaga de professor na cadeira de Literaturas Africanas em Língua Portuguesa.
Entre as nove concorrentes à vaga estava Érica Cristina Bispo, mulher negra, doutora em Letras Vernáculas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisadora das literaturas africanas, com ênfase na literatura da Guiné-Bissau, professora há 20 anos e que nos últimos dez anos leciona literatura no Instituto Federal do Rio de Janeiro, onde também integra o corpo docente da pós-graduação em Educação e Direitos Humanos e Ensino de História e Culturas Africanas e Afro-Brasileira.
Concluídas as etapas da prova escrita, prova de títulos e memorial (aula prática), Érica obteve o melhor somatório de notas, sendo aprovada por unanimidade pela banca examinadora, composta por quatro mulheres e um homem. Entretanto, seis dos demais candidatos entraram com recurso coletivo contra sua aprovação, tendo como uma das alegações a suposta “amizade íntima” de Érica com membros da banca, isso porque em fotos de internet ela aparece em momentos de confraternização com algum deles em pós-eventos acadêmicos.
“Com base nisso, a procuradoria da USP indicou a anulação do meu concurso. E no dia 18 de março de 2025, o conselho universitário referendou a indicação da procuradoria e anulou o concurso, nove meses depois do resultado”, lamentou Érica, ao relatar o ocorrido na edição de 24 de outubro do programa Manas e Manhãs, apresentado por Simone Preciozo na rádio Cantareira FM.
Simone, que também é professora, externou sua revolta de que a procuradoria da USP tenha acolhido tal argumento de “amizade íntima”, pois é habitual que professores confraternizem após eventos acadêmicos, ainda que não se conheçam anteriormente nem mantenham laços de amizade. “Foi uma desonestidade o que fizeram com você, professora Érica”, enfatizou.
Érica revelou que ficou na expectativa de que o recurso não fosse acolhido ao final de todo o processo: “O que estava sendo questionado era a impessoalidade, mas essa impessoalidade teria de se tornar um favorecimento. E o favorecimento seria que essas pessoas, essas professoras que aparecem nas fotos comigo, me dessem notas diferentes, provavelmente mais altas do que os outros professores, e isso não aconteceu. Não houve favorecimento!”
A professora, então, entrou com duas ações no Tribunal de Justiça de São Paulo: uma pede a anulação do concurso, e outra solicita que se impeça que haja um novo concurso até que este caso seja resolvido na Justiça. Em 15 de dezembro do ano passado, a Justiça de São Paulo determinou a suspensão de um novo processo seletivo – que havia sido iniciado em 30 de setembro pela USP – até que se defina a situação de Érica Bispo.

REVERBERAÇÕES
Para além de um episódio que afeta uma pessoa, o que está sendo vivenciado pela professora Érica Bispo reabriu discussões sobre o racismo institucional no Brasil e a violência que recorrentemente as pessoas pretas sofrem ainda hoje.
“O que aconteceu comigo não é diferente dessa violência que as meninas negras periféricas, vulneráveis socialmente, sofreram e sofrem sistematicamente”, enfatizou Érica, comentando que ao longo da vida elas são preteridas por diferentes fatores que quase sempre as afastam da oportunidade de dar sequência aos estudos ou de fazê-lo com qualidade.
Érica comentou que a partir do momento em que publicizou o que houve consigo, começou a receber muitos relatos de pessoas que sofreram violência racial, violência institucional, violência moral, a partir do lugar social que ocupam, como professoras, pesquisadoras, bolsistas e estudantes: “Muita gente se identificou com a minha história, porque entendeu, que ‘o que está acontecendo com ela, já aconteceu comigo em algum momento’”.
A professora mencionou algumas cartas e vídeos que recebeu de apoio, destacando o vídeo postado pela senhora Flávia Santos, na página Corrida Literária, na qual lê o texto “Carta às minhas filhas”, falando de um futuro, no qual um dia as filhas delas irão ouvir falar de Érica Bispo.
“É um vídeo emocionante demais, falando sobre como a minha história pode influenciar a vida das filhas dela; ou como a minha história pode ser a história que as filhas dela vão ouvir um dia; e que ela deseja um mundo com menos racismo. Assim, ao mesmo tempo em que a gente tem um lado que é de mostrar que existe uma violência institucional, causada por um racismo que é estrutural e estruturante da nossa sociedade brasileira, há um lado de força, de coragem, de crescimento que vai muito além daquilo que eu poderia imaginar quando eu pensei em publicizar o caso”, contou Érica.
A PERMANENTE LUTA POR VISIBILIDADE
Ao longo da entrevista, Simone comentou sobre o frequente silenciamento que a sociedade tenta impor às mulheres, em especial às negras e pobres: “Parece que o recado para elas é ‘estudem, mas não sonhem com o lugar mais alto. Faça aí a sua universidade, dê a sua aula no bairro, você não pode sonhar com o máximo’. Então, Érica, essa luta não é somente sua, ela é uma luta coletiva, de cada professora e de cada professor que lutou pelas meninas da escola pública, de cada mãe e de cada mulher que se reconhece nessa causa. Então, a gente só tem a agradecer mesmo essa sua coragem!”, disse, lembrando ainda que sempre que alguém reclama de uma decisão como a que ocorreu neste caso da USP acaba sendo descredibilizado, o que reforça a coragem da professora Érica.
Simone destacou, ainda, que a USP foi a última entre as maiores universidades do país a aceitar estudantes cotistas e, que assim, está sendo a última a fazer um caminho de desconstrução desse racismo histórico.
“A lei de cotas, que é de 2012, trabalha, primeiro, olhando para quem está em vulnerabilidade social e depois, entre esses, se divide entre brancos e não brancos. Existe na lei, portanto, essa reserva que é racializada. Quando a USP aderiu às cotas, primeiro aderiu às cotas sociais e percebeu que estas não bastavam para inserir a população negra. E até hoje, estas cotas não chegaram aos concursos docentes”, lembrou Érica, destacando que em outras universidades já há essa reserva de vaga para pretos, pardos e indígenas nos concursos docentes. Comentou, ainda, que na USP a área de literatura africana é composta por professores brancos. Diante deste e de outros fatos, Simone Preciozo lamentou que ainda hoje nas universidades públicas predominem estudantes brancas e com sobrenomes de famílias das elites.

O QUE FAZER PERANTE O RACISMO ESTRUTURAL?
A essa pergunta feita por Simone Preciozo, Érica Bispo respondeu que o primeiro caminho para superar o racismo estrutural está na educação, para que cada vez mais as pessoas entendam a dinâmica das relações raciais na sociedade.
A esse respeito, ela recomendou a leitura o livro “O Genocídio do Negro Brasileiro”, de Abdias do Nascimento; bem como dos escritos de Lélia Gonzalez, Jamila Ribeiro, Silvio Almeida e os livros da coleção Interseccionalidade: “Esse movimento de estudar sobre o tema é o primeiro passo, porque a gente se torna consciente daquilo que é, das estruturas sobre as quais o Brasil está formado. E conhecendo as estruturas, podemos destruí-las para reconstruí-las. Podemos construir um mundo diferente para os nossos filhos e para os nossos netos”.
Érica também recomendou que os professores tenham uma visão holística para o aluno que está em condição de vulnerabilidade social, já encarando, por princípio, ser uma grande vitória de ele ter chegado à escola: “É muito mais importante ele estar na escola do que estar vendendo bala na rua ou fazendo coisa pior. A gente precisa ter um olhar muito sensível para esse estudante”.
Outra recomendação de Érica é que as pessoas votem em candidatos que, de fato, têm preocupação com quem esteja em situação de vulnerabilidade social, que são preocupados em mudar as estruturas sociais e que pensem políticas públicas para as crianças periféricas. “Sem isso, a gente não consegue mudar o nosso país, a gente só vai continuar reproduzindo essa estrutura que é excludente, que continua excluindo, e que se deixassem pediria até a revogação da Lei Áurea”, ressaltou.
Simone pediu aos professores da educação básica que se esforcem e lutem para que se ofereça aos seus alunos aquilo que gostariam que fosse ofertado aos próprios filhos na escola, tendo também preocupação com questões como bullying, racismo ou outras situações pelas quais as crianças passam dentro ou fora do ambiente escolar.

COMO APOIAR A PROFESSORA ÉRICA
Há dois abaixo-assinados para quem deseja apoiar a professora Érica: um deles criado pelo Centro Acadêmico de Letras da USP e o outro pelo Movimento Negro Evangélico, com o apoio da Coalizão Negra por Direitos. Clique abaixo e assine:
ABAIXO-ASSINADO EM APOIO A ÉRICA BISPO
ABAIXO-ASSINADO JUSTIÇA POR ÉRICA BISPO
ACESSE O INSTAGRAM DA PROFESSORA
“Assinem os dois, por favor. Ajudem a aumentar esse pedido, esse clamor por justiça, por apoio, e repudiando a decisão que foi tomada pelo Conselho Universitário da USP”, pediu Érica.
A professora recordou que todo esse episódio “foi adoecedor, porque o racismo é adoecedor”. Também disse que entrar com um recurso contra a decisão da USP lhe trouxe um custo financeiro, emocional, profissional.
Por fim, Simone Preciozo ressaltou que a rádio Cantareira FM se une a essa luta por justiça em favor da professora Érica Bispo: “A gente não pode deixar isso barato. De jeito nenhum. Essa luta, professora, é nossa!”.
Ao agradecer a oportunidade de participar do programa, a professora Érica Bispo despediu-se dos ouvintes e internautas recordando um trecho da canção “Maria, Maria”, de Milton Nascimento: “Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter sonhos sempre. Quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida”.
ASSISTA A ÍNTEGRA DO ‘MANAS E MANHÃS’ DE 24 DE OUTUBRO
