‘Ambiente por Inteiro’ entrevista Ana Laura, da Rede Emancipa
Coordenadora da Rede Emancipa – movimento social de educação popular, mãe de dois filhos, militante política de esquerda, participante do mandato da deputada estadual Mônica Seixas do Movimento Pretas e cantora no bloco de Arte Educação Ilu Obá de Min. Com esta rica biografia, Ana Laura (@analauraaxe) foi a entrevistada da edição de 25 de setembro do programa ‘Ambiente por Inteiro’, apresentado por Paulo Jofre na rádio comunitária Cantareira FM.
Moradora de Itapevi, na Grande São Paulo, Ana Laura estava se decidindo sobre o que fazer da vida quando concluiu o Ensino Médio. Apresentada à Rede Emancipa, começou a ter aulas no cursinho e, depois, a ajudar na coordenação. Frustrada com o baixo desempenho na prova do Enem de 2012, ela deixou tudo de lado e foi trabalhar em uma rede de fast-food, mas um ano depois voltou à Rede Emancipa para não mais sair – hoje a Rede tem 61 núcleos de cursinhos populares espalhados pelo Brasil.
Ana Laura também passou a se engajar em causas sociais e políticas, sendo inclusive candidata a vice-prefeita em sua cidade. Em 2020, foi chamada para ajudar na campanha que elegeu Luana Alves (PSOL) como a primeira vereadora negra da história da cidade de São Paulo.
COMO PENSA A JUVENTUDE DE HOJE

Durante o programa, Jofre e Ana Laura tiveram um extenso de diálogo sobre a como a juventude tem pensado os temas da atualidade.
“Estamos vivendo várias mudanças sociais por conta da internet. A minha geração, da faixa dos 30 anos, fazia encontros presenciais a todo o momento, já hoje, a sociedade acessa as informações muito mais rápido. Quando eu chego aos cursinhos, vejo as pessoas falando de diversos assuntos que vêm de fake news, aquela coisa que o tio ouviu falar da tia, que soube de uma amiga que recebeu no WhatsApp. E a gente sempre diz aos participantes que é preciso pesquisar mais as informações, pois até quando a gente vê as redações dos estudantes aparecem informações completamente distorcidas”, disse Ana Laura.
Ela refutou a ideia daqueles que pensam que a juventude atual é uma geração desinteressada, pois, por exemplo, está muito engajada no debate pelo fim da jornada 6×1 de trabalho. “No cursinho, a gente fala com este jovem para que não pense apenas em alcançar seus projetos individuais, mas também pense no projeto mais coletivo de luta na sociedade para fazer as coisas diferentes”.
Ana Laura avalia que o avanço da extrema direita aos territórios periféricos tem gerado uma resposta mais bem organizada das juventudes nas periferias, inclusive politicamente. Ela citou o exemplo de que nas atuais batalhas de slam recorrentemente as questões políticas são parte das rimas.
“Mas ainda temos muita falta de espaço para a juventude se expressar. Vemos isso na escola, na universidade, na sociedade como um todo. Cada vez mais, as pessoas vão marginalizando estes espaços, mas temos de fazer que existam cada vez mais, pois são de muita potência”, enfatizou.
INCENTIVO PARA A CONTINUIDADE DOS ESTUDOS
Ana Laura destacou que seja nas turmas do cursinho, seja no ensino médio e nas universidade, tem havido grande evasão de estudantes, pois a rotina de trabalho que vem sendo coloca aos jovens faz com que muitos não suportem mais trabalhar e estudar, nem militar por causas sociais.
“Às vezes, não é que o jovem está desinteressado em ter parte na organização social ou fazer luta política. Este jovem tem de trabalhar demais – seja para sustentar por inteiro sua família, seja para ajudar nas contas da casa – e estudar. Então, há toda essa questão do cansaço”, comentou.
Ana Laura lembrou que diante deste contexto é fundamental que se mantenham políticas de incentivo à permanência dos estudantes nas universidades, mas mesmo com elas nem sempre é possível obter um diploma de nível superior.
“Eu fui universitária graças ao Pro Uni. Eu tinha que sair daqui de Itapevi e percorrer quase 40 quilômetros até o Tatuapé, na capital, pra conseguir fazer a faculdade de Geografia. E não consegui terminar. Eu tinha de sair meia hora antes de acabar a aula para não perder o último ônibus que me levaria até em casa, e muitas vezes perdia, e precisava subir a ladeira da minha casa sozinha, de noite. Também engravidei e não tive como manter esta rotina estando grávida”.
Ana Laura lembrou, ainda, que muitos jovens hoje questionam o quanto vale o esforço para ter um diploma universitário e buscam o caminho de trabalho sem alto grau de qualificação, como para as empresas de aplicativos. “Ainda assim, na nossa bolha, pelo que percebemos na Rede Emancipa, há muita gente com vontade, garra, força para passar em uma universidade e que ainda se engaja em outros processos de luta que são muito importantes”, destacou.
Na avaliação da coordenadora da Rede Emancipa, os tradicionais movimentos estudantis e operários hoje já não conseguem representar mais os ideais da juventude mais periférica e radical, também pelo fato de tais instituições quase sempre buscarem um alinhamento com o poder instituído: “Vemos uma conexão institucional com setores que acenam e batem palmas para tudo que acontece dentro do governo federal, o que eu penso que é um problema, pois temos de ter mais crítica ao que vem sendo feito pelo governo Lula, pois por mais que seja democrático, progressista e certamente melhor do que seria com a ditadura ou com o bolsonarismo, não dá pra bater palmas pra tudo”.

MEIO AMBIENTE E ARTE
Como integrante do mandato da deputada estadual Mônica Seixas do Movimento Pretas, Ana Laura conta que a tentativa é fazer da tribuna da Alesp uma caixa de ressonância para as demandas que o mandato recebe, já que dialogar com os demais parlamentares tem sido uma tarefa quase impossível.
“Nós tentamos nos organizar fazendo luta em prol do meio ambiente, do eco socialismo, de avançar no entendimento das pessoas sobre a necessidade de uma nova forma de organização social, pois estamos passando por uma mudança climática terrível e, por isso, precisamos entender outros conceitos de sobreviver”, disse a entrevistada.
Na parte final do programa, Ana Laura falou de sua vertente artística, como participante do bloco de Arte Educação Ilu Obá de Min, que existe há mais de 20 anos. Ela conheceu o Ilu Obá de Min em 2021. Trata-se de um grupo composto por 400 mulheres negras, sendo o maior bloco de mulheres negras do Brasil, e que sempre abre o carnaval de rua de São Paulo.
“No bloco, eu me conectei com minha ancestralidade. Eu sou do candomblé e o Ilu canta o axé, as cantigas do candomblé, dos orixás na avenida, e isso foi uma das coisas que me inspirou a participar deste espaço. Eu aprendi a cantar, a me fortalecer contando histórias, recordar as histórias forçosamente apagadas no Brasil”, detalhou.
Em outros carnavais, o Ilu Obá de Min fez homenagem a mulheres negras ainda vivas. Já foram temas Elza Soares, Leci Brandão, Sueli Carneiro e a família da Marielle Franco. O tema do carnaval 2026 do Ilú Obá de Min é “Ifátínúké: Iyá-Olobá do Axé Transatlântico”, uma homenagem a essa liderança ancestral de Pernambuco.
Para o futuro, Ana Laura pretende escrever um livro falando de sua própria história e de como conectar as lutas da vida à ancestralidade. “A minha missão de vida não é apenas minha, é de muitos outros que vieram antes de mim”.
ASSISTA A LIVE DE 25 DE SETEMBRO DO ‘AMBIENTE POR INTEIRO’
